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Crítica

A Pele que Habito | Crítica

Pedro Almodóvar faz as pazes com o cinema de gênero em seu Frankenstein moderno

Marcelo Hessel
03.11.2011, às 20H00
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H37
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H37

"Por que você está me barbeando?", questiona o paciente ao cirurgião plástico Robert Ledgard (Antonio Banderas). "Essa é uma boa pergunta", responde o médico, antes de passar-lhe a navalha pelo pescoço.

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A cena diz muito sobre A Pele que Habito (La Piel que Habito), o novo filme de Pedro Almodóvar (Má Educação, Volver), que está cheio de perguntas aparentemente simples, respondidas com enigmas. As intenções do cirurgião ficarão claras mais adiante, mas, naquele momento, uma navalha é só uma navalha - ela está ali não por conter alguma conotação rara, ela está ali por ser um instrumento de terror. O contexto vem só depois.

De início sabemos que, desde que perdeu sua esposa, Robert Ledgard se dedica a construir a pele perfeita, capaz de resistir à dor, misturando DNA humano com suíno. Embora negue, este Dr. Frankenstein moderno está tentando recriar a sua mulher por meio da ciência, é mais do que evidente. Mas, como na outra cena, a evidência é só uma primeira camada...

Quando decidiu adaptar ao cinema o livro Tarantula, do escritor francês Thierry Jonquet, Almodóvar disse que faria um filme de terror sem gritos ou sustos. A Pele que Habito é justamente isso - antes de surgir da consequência dos atos, o terror e a violência estão presentes na própria natureza dos objetos, seja uma lâmina, um pano rasgado ou um rabo fálico de tigre. É um terror mais puro, por assim dizer, e mais angustiante, porque é o pavor do mal-estar, nós o sentimos sem saber direito o porquê.

À medida em que os enigmas vão sendo respondidos, A Pele que Habito inevitavelmente perde um pouco do seu encanto. Até lá, porém, Almodóvar manipula bem os elementos que são típicos do terror (o cientista louco, a cobaia, o voyeurismo) e faz as pazes com o cinema de gênero.

É verdade que o cineasta espanhol nunca o largou, mas em seus trabalhos recentes, especialmente no instável Abraços Partidos, o cinema de gênero (naquele caso, a trama de mistério) termina sufocado pelo "autorismo". Todo objeto e toda situação vêm carregados de tanto simbolismo que a ação, em si, se esvazia de sentido. E cinema de gênero existe em função da ação, não dos significados dessa ação.

Como em A Pele que Habito continua valendo a lógica da lâmina - o símbolo pode eventualmente surgir na interpretação do espectador, mas não é inerente ao objeto - Almodóvar consegue expurgar o autorismo e retornar a uma certa clareza da ação. Repare como as situações de morte, no filme, nunca são apenas uma ameaça - elas se consumam. Afinal, lâminas foram feitas para cortar e armas, para atirar.

Mesmo os objetos mais simbólicos do mundo, os falos, neste filme são apenas isso: falos. O médico louco tem uma coleção deles, pintos de muitos tamanhos. E não são meros enfeites, emblemas da virilidade etc. Falos também foram feitos para ser usados, e em A Pele que Habito eles são. Não deve haver terror maior.

 

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A Pele que Habito
La Piel que Habito
A Pele que Habito
La Piel que Habito

Ano: 2011

País: Espanha

Classificação: 16 anos

Duração: 117 min

Direção: Pedro Almodóvar

Elenco: Antonio Banderas, Elena Anaya, Marisa Paredes, Jan Cornet, Roberto Álamo, Eduard Fernández, José Gómez, Blanca Suárez, Susi Sánchez, Bárbara Lennie, Fernando Cayo, Chema Ruiz, Buika, Ana Mena, Teresa Manresa, Fernando Iglesias, Agustín Almodóvar, Miguel Almodóvar, Marta R. Mahou

Nota do Crítico
Ótimo

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