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Crítica

Pele de Rinoceronte: drama sobre feminicídio acerta na sutileza, mas hesita antes do golpe final

Filme de Marcelo Lima foge do gráfico para denunciar violências

Omelete
4 min de leitura
18.08.2026, às 06H00.
Pele de Rinoceronte: drama sobre feminicídio acerta na sutileza, mas hesita antes do golpe final

Há uma escolha que atravessa Pele de Rinoceronte do início ao fim: a de não mostrar. Em um ano em que o cinema brasileiro segue flertando com a violência explícita como forma de denúncia, o novo longa de Marcelo Lima decide que o corpo de Ângela Diniz — ou melhor, de uma mulher que poderia ser Ângela Diniz, já que seu nome nunca é dito em tela — não precisa ser exibido para que a plateia sinta o peso do crime. É uma aposta correta, e em 2026 talvez nem devesse ser vista como ousadia, e sim como o mínimo. Mas o filme cumpre essa promessa com uma consistência que muitos dramas do gênero não têm.

O acerto mais interessante de Pele de Rinoceronte não está no crime em si, mas no que ele revela sobre os homens que não cometem crimes. A cena mais eloquente do filme talvez nem tenha um grito ou um tapa: é o momento em que o personagem de Irandhir Santos, diante da filha chorando, não se move, e ainda pergunta à esposa, (uma excelente Naruna Costa) quem vai cuidar das duas se ela viajar a trabalho. Não há vilania ali, só a arquitetura invisível do machismo estrutural, o tipo que se disfarça de rotina doméstica e nunca precisa levantar a voz para oprimir. É nesse registro que o filme funciona melhor: quando entende que a violência de gênero não é só o estopim, mas o acúmulo de gestos pequenos que a sociedade aprendeu a não enxergar.

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A decisão de manter o nome de Ângela Diniz fora do roteiro também merece crédito. Ao recusar a citação direta, Pele de Rinoceronte transforma o caso real em símbolo — poderia ser qualquer mulher, e é essa generalização que dá ao filme sua urgência, lembrando que o Brasil segue contabilizando vítimas da violência doméstica décadas depois. É um recurso que dialoga com o próprio processo dos atores: Débora Falabella, outra protagonista do longa, já havia mencionado sua pesquisa sobre a peça Prima Facie como ponto de partida para pensar a personagem, e essa bagagem aparece na tela na forma de uma jornalista que começa a história querendo apenas os fatos e termina reconhecendo os próprios ferimentos.

E é aí que mora o segundo grande acerto do filme: a jornada de Helena (Falabella). Ela entra na trama como uma repórter policial obcecada em contar a verdade sobre a vítima, sem meias palavras, direto aos fatos, e sai dela reconhecendo que vive, ela mesma, uma relação abusiva com o chefe (Augusto Madeira). É um arco bem construído, que evita o esquematismo de transformar a protagonista numa observadora externa da tragédia alheia. Ao aproximar investigadora e investigada, Pele de Rinoceronte sugere, sem sublinhar, que a linha entre quem cobre a violência e quem a sofre é mais tênue do que se gostaria de admitir.

O problema é que o longa parece ter medo do próprio talento para a sutileza. Depois de construir cenas inteiras sobre o não-dito, o roteiro recua e passa a sublinhar o óbvio, como se não confiasse que a plateia captaria os sinais que ele mesmo plantou com tanto cuidado. O didatismo entra justamente onde a obra havia até então evitado, e é uma pena porque o material que Pele de Rinoceronte tinha em mãos comportava um golpe mais seco, mais implícito, capaz de chocar sem precisar explicar. O resultado é um filme que nunca alça o voo mais alto que parece buscar, preso entre a vontade de ser fino e o receio de não ser compreendido.

Essa hesitação cobra seu preço também no desfecho. Ao evitar se debruçar sobre a história de Ângela Diniz além do necessário para ambientar a trama, o roteiro chega ao final com uma sensação de conversa interrompida — como se um argumento importante tivesse sido abandonado a poucos passos da conclusão. As duas protagonistas encontram algo próximo de um final feliz, e não é um problema em si: o problema é que esse fechamento pessoal soa desconectado do peso histórico que o filme carregou até ali, como se as duas histórias — a íntima e a coletiva — não tivessem terminado de conversar entre si.

Ainda assim, Pele de Rinoceronte é um filme que vale a pena ser visto, principalmente pelo que recusa fazer. Em uma indústria ainda tentada pelo espetáculo da dor feminina, Marcelo Lima prefere apostar no relato da observação,  mesmo que, no fim, não vá além de onde sua própria linguagem indicava ser possível.

Nota do Crítico

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