Cena do filme Pedágio

Créditos da imagem: Divulgação

Filmes

Crítica

Pedágio escancara com sutileza as multidões do Brasil

Trama de mãe e filho passa por cura gay e religião para dialogar sobre afeto e solidão

Omelete
3 min de leitura
29.11.2023, às 15H42
ATUALIZADA EM 02.12.2023, ÀS 10H58
ATUALIZADA EM 02.12.2023, ÀS 10H58

Em Pedágio, Carolina Markowicz mistura uma série de contradições. O pedágio em si, uma representação física da falsa sensação de controle que se impõe sobre aqueles trabalhadores, sintetiza a solidão e a frieza da vida em uma cidade industrial, em que tudo, da estética ao clima nada convidativo, soa distante. A ausência de vida e calor em tudo o que rodeia Suellen (Maeve Jinkings) é contrastada pela energia pulsante de seu filho Tiquinho (Kauan Alvarenga), as cores vibrantes em seus vídeos sendo o primeiro sinal óbvio de seu não-pertencimento.

A provocação do filme é exatamente a sobreposição de afetos e desafetos, que se alternam em uma sátira que provoca o espectador a questionar e rir de um Brasil que esconde sua hipocrisia nas entrelinhas do cotidiano. Todos esses elementos resultam em um filme que, embora não fuja de uma narrativa já conhecida no nosso cinema independente, é grandioso ao construir uma relação que nunca se explica de forma óbvia, mas que simboliza muito bem o quanto nossas identidades, enquanto múltiplos países em um, se cruzam.

Por um lado, a sátira no retrato da religião é eficiente e milimetricamente calculada para ficar entre a condenação e o riso; por outro, há de se considerar que falta um pouco de autoconsciência. A personagem Telma (Aline Marta Maia), ainda que um ponto de encontro crucial para a evolução dos conflitos narrativos, acaba se manifestando como alguém facilmente manipulável, e toda a sua complexidade acaba ficando escanteada em prol de algumas risadas que certamente excluem uma potencial parcela interessante da audiência.

Mesmo assim, Pedágio é um filme muito rico em estudo de personagem, e toda a construção estética contribui para que Suellen e Tiquinho funcionem como polos opostos na representação de um Brasil plural. A obsessão da mãe pela tal cura gay, presente na forma de um pastor gringo charlatão que arranca dinheiro de pessoas de baixa renda, é recebida com aspereza pelo filho, mas há algo que beira o inexplicável na relação entre os dois, que não se abandonam apesar das rejeições que os rodeiam. Tudo contribui para um cenário em que mãe e filho mutuamente se rejeitassem, mas Markowicz usa as contradições de um país de dimensões continentais para mostrar o que não precisa ser dito na construção deste cenário familiar.

Se ainda fosse necessária mais uma figurinha para explicar a importância do afeto, é o posicionamento de Arauto (Thomás Aquino), sempre em uma jornada particular que serve de contraponto a tudo isso.

Desta forma, é a mistura de elementos mundanos, compondo uma espécie de colcha de retalhos -- do retrato de um povo que se equilibra entre o rigor religioso e a sexualidade óbvia, entre desejos e vontades --, que faz de Pedágio uma parada não obrigatória, mas particularmente singela, para quem busca um cinema que espelha as complexidades que habitam lares brasileiros.

As escolhas dos personagens no terço final da obra dizem muito sobre um país que ainda se divide em um binarismo político e ideológico, em que pesam muitos elementos que estão além do óbvio do que se debate em círculos acadêmicos e elitizados. Afeto, entendimento de que há um histórico em tudo o que compõe a existência de uma pessoa e, acima de tudo isso, empatia, fazem diferença para um resultado em que vence a tolerância das diferenças —embora muitas vezes essa seja silenciosa e nada celebratória.

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