Apesar de tímido, filme de Peaky Blinders dá despedida digna a Tommy Shelby
Cillian Murphy retorna para iniciar uma nova era da franquia
É no mínimo curioso que o filme que marca a despedida de Cillian Murphy como Tommy Shelby venha com o subtítulo O Homem Imortal. De 2013, quando a primeira temporada de Peaky Blinders estreou, até agora, com o filme que encerra a sua participação na franquia, o personagem se tornou um símbolo da cultura pop. Homens contemporâneos copiaram o seu corte de cabelo e trejeitos, colocaram a boina de volta no universo da moda e fizeram com que o termo “frio e calculista” se tornasse quase sinônimo de sua imagem. Treze anos depois de sua primeira aparição, é justo dizer que Tommy se tornou, de fato, imortal.
Talvez seja por isso que sua última aventura pareça um tanto tímida. Quando a série original acabou, Tommy estava se isolando de seu próprio mundo. Cansado das constantes batalhas e perdas, o líder dos Peaky Blinders deixou para trás família, status e poder, convencido de que seu tempo havia acabado. Quando O Homem Imortal começa, seis anos depois do “adeus” de Tommy, ele ainda está em seu exílio, mas é praticamente arrancado dele quando a Segunda Guerra Mundial bate na porta dos Peaky Blinders e da família Shelby, agora liderada por Duke (Barry Keoghan). Para isso acontecer, Tommy precisa encarar - e superar - o seu maior trauma até aqui.
A forma encontrada por Steven Knight, criador da franquia e roteirista do filme, para arrancar Tommy de seu exílio é brutal e chocante. Não que isso seja novidade no mundo dos Peaky Blinders, mas Knight dobra a aposta para que a última aventura de Murphy na pele do Imortal seja, de fato, inesquecível. O problema é que a apoteose aguardada para uma despedida desse nível precisaria de mais recheio para chegar ao ápice em boa forma, e a sensação é de que tentaram encaixar uma história típica de uma temporada de seis episódios em pouco menos de 120 minutos. Com muita frequência, parece uma repetição do material antigo da série.
Ao buscar inspiração na história de sua própria família, Knight faz de O Homem Imortal um importante retrato dos difíceis primeiros anos da guerra para os ingleses. Como homenagem e registro histórico, o longa funciona perfeitamente, e inicialmente parece uma excelente escolha para situar o canto do cisne de Tommy Shelby. Mas há uma constante sensação de que o roteirista precisou costurar a passagem de bastão de Tommy para Duke para encaixá-la dentro desse recorte histórico, e para encontrar este espaço, muitos elementos - personagens e histórias paralelas - foram retirados de cena. E por mais que Tommy Shelby sempre tenha sido a força motriz da franquia, ele nunca esteve sozinho.
Com pouco tempo para preparar o retorno de seu principal jogador ao campo, O Homem Imortal acaba por tirar a força de seus coadjuvantes. Encarregado de dar sequência ao legado dos Shelby, o Duke de Barry Keoghan entrega violência e brutalidade na mesma medida que um personagens desses pede, mas seu papel na história não tem a força que deveria ter. O mesmo acontece com o vilão de Tim Roth, que apesar de carismático, não tem a mesma presença ameaçadora que um fascista representa, ainda mais se comparado com o Oswald Mosley, de Sam Claflin, antagonista das últimas temporadas.
Quem não é afetada pela pressa que diminui o tempero dessa despedida é Rebecca Ferguson. Na pele da cigana Kaulo, a atriz entrega a sedução e mistério que uma femme fatale deveria ter, e sua participação, mesmo que pequena, ecoa a presença (e a falta) que Polly Gray (CroHelen Mcry) tinha na vida dos Shelby.
E então temos Tommy. Assombrado por seus fantasmas e demônios, as lembranças dos mortos o atormentam todos os dias enquanto escreve sua própria biografia. Murphy parece mais exausto do que nunca em sua pele, fruto das inúmeras perdas ocasionadas pela sua busca por poder. Seus fios brancos são reflexos dos sacrifícios feitos, e Steven Knight traduz isso com perfeição ao trazê-lo de volta aos holofotes. “Quem diabos é Tommy Shelby?”, pergunta um soldado um tanto desinformado. Pois bem, não demora para que ele o conheça, embora para o espectador pareça uma vida até que o “verdadeiro” Tommy Shelby dê as caras em O Homem Imortal.
Por mais que tenha menos tempero do que o esperado, Peaky Blinders: O Homem Imortal ainda é uma despedida digna de um personagem que, de fato, se tornou maior que sua vida. Após 13 anos, é difícil que uma reviravolta tenha os mesmos efeitos de outrora, ainda mais com seis temporadas na bagagem. Mas os Shelby mostram que ainda têm cartas na manga para nos surpreender e uma passagem de bastão à altura da franquia. Por ordem dos Peaky Blinders, é hora de dizer adeus a Tommy Shelby.