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Créditos da imagem: Parasita/Pandora Filmes/Divulgação

Filmes

Crítica

Parasita

Premiado filme de Bong Joon-ho leva a montanha-russa de emoções ao pé da letra

Marcelo Hessel
07.11.2019
12h37

Que bela façanha a de Parasita, de cativar o espectador numa narrativa surpreendente sobre... arquitetura e urbanismo.

Ok, há muito mais acontecendo em Parasita, e as tentativas de classificar o filme de Bong Joon-ho tematicamente - para além da opinião de efeito - podem ser frustrantes. Dos trabalhos do cineasta sul-coreano, conhecidos pela transição entre gêneros, este é o que mais intensamente os modula, vai e vem da comédia ao terror, passando pelo drama social, e Parasita faz desse passeio metalinguístico sua própria razão de ser.

"Que metafórico", diz um personagem quando escuta alguma analogia ou um jogo de palavras mais bem sacado. Bong escreve esses diálogos com sarcasmo como uma forma de se vacinar contra as armadilhas dos filmes que se julgam, pelo engenho, mais inteligentes que seus espectadores. Se Parasita tem se revelado um sucesso de público e crítica, talvez seja muito pela forma como envolve o espectador numa troca que é vertical porém cheia de fair play: as viradas da trama não são antecipadas por pistas falsas ou previsíveis, e o elogio do engenho da contação não vem acompanhado de um pedantismo de "dono da narrativa".

Na verdade, as viradas de roteiro e tom acontecem de formas tão harmônicas, engraçadas e imprevistas que até o próprio Bong parece pego de surpresa pelo jogo anárquico promovido por seus personagens. Ator-símbolo do diretor, Song Kang-ho vive um pai de família pobre, ocupante com a mulher e dois filhos de uma das meia-residências de Seul (os apartamentos que têm quase metade do seu pé-direito abaixo do nível da rua). Eles vivem de gambiarra em gambiarra, e quando um golpe contra ricaços começa a dar certo, a família abraça a chance de ascender socialmente e literalmente sair do buraco.

Chamar Parasita de uma experiência vertical, veja só, pode ser uma metáfora muito oportuna, não só porque deixar-se manipular por Bong é o prazer do filme, mas também porque os próprios espaços e as dinâmicas de personagens respondem a uma lógica de sobe e desce. Cenas como a do início da inundação, quando a família desce a cidade toda até a velha casa, e acompanhamos a escadaria numa tomada à distância, meio casa-de-bonecas, são profundamente dickensianas nas cores melancólicas e na sua função de servir de síntese visual de uma injustiça social.

O comentário contra o capitalismo tem se tornado regra no cinema de Bong. Em entrevistas, o cineasta diz que O Expresso do Amanhã era um filme de corredores, enquanto Parasita é um filme de escadarias, e isso diz muito sobre as diferenças entre esses seus dois filmes, especialmente em relação ao desfecho. À parte essa comparação, a declaração de Bong prova que é verdadeiramente proposital a brincadeira que o diretor nos impõe de montanha-russa de gêneros, o sobe e desce de expectativas e surpresas (cada "degrau" pode ser um novo tombo). Que o cineasta abrace tão plena e profundamente esse projeto acaba sendo o fair play definitivo na relação de provocações com o espectador.

Se a imagem da escadaria é a síntese de Parasita no que tange a brincadeira de tons e gêneros, a visão de mundo de Bong Joon-ho é representada pelas aberturas de luz: frestas de portas, janelas, focos de lâmpadas. Fala-se muito no filme sobre o arquiteto que construiu a casa dos ricaços, e sua realização maior não seria outra senão o grande janelão que dá para o jardim e convida o mundo, a luz, a entrar na sala de estar. A anarquia de Parasita está nesse convite, porque mesmo o espaço de exclusão social mais revoltante (temos aqui uma história de doppelgängers até bem próxima do Nós de Jordan Peele então é esperado que o filme recorra à dicotomia mundo da superfície vs mundo do subterrâneo em vários momentos) se transforma pelo uso que fazemos dele.

Parasita volta a lembrar Charles Dickens no humanismo, ou pelo menos um conto de Natal dickensiano, porque não faltam aqui os presentes, a neve que cai devagar. A esses fachos de esperança, que podem lembrar Dickens porque têm uma inocência de relato "antigo", não-irônico, Bong junta o oposto, o futurismo inconsequente, o relato apocalíptico (um conflito nuclear com a Coreia do Norte seria a virada final a nivelar todos os personagens), a melancolia do fim das coisas boas e ruins, que voltam a aproximar Parasita de O Expresso do Amanhã e também do seu O Hospedeiro (que no caso aqui seria tanto horizontal quanto vertical, pelo menos nos movimentos erráticos do monstro e na correria de gente pelas galerias de água e pra cima e pra baixo de Seul).

Talvez Parasita seja mesmo, afinal, um filme sobre arquitetura - de espaços, de relatos. "Trace um plano e o mundo fará dar errado", diz o protagonista, e um texto que começou na minha cabeça sem saber como terminaria só poderia mesmo dar a volta, tonto, até seu ponto de partida.

Nota do Crítico
Excelente!