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Crítica

Parallel Tales se perde numa casa de espelhos que o próprio Asghar Farhadi cria

Com Isabelle Huppert, Vincent Cassel e mais estrelas francesas, filme brinca (demais) com a linha entre realidade e ficção

Omelete
5 min de leitura
15.05.2026, às 08H50.
Isabelle Huppert em Parallel Tales (Reprodução)

Créditos da imagem: Isabelle Huppert em Parallel Tales (Reprodução)

A primeira cena de Parallel Tales (ou Histoires Parallèles, se você preferir o título em francês) brinca com uma série de suposições por parte do público. Um jovem chamado Adam (Adam Bessa) entra no metrô francês trocando olhares com uma moça. Há uma pitada de flerte no ar, mas isso logo se desfaz depois que a mulher vai embora do vagão num momento que inicialmente interpretamos como uma fuga de Adam – até perceber que ela furtou a carteira de uma grávida. Adam decide intervir e alcança a ladra, devolvendo à Laurence (India Hair) aquilo que é seu. Ela retribui o favor ajudando-o a não ser preso pela polícia local que, claro, suspeita que Adam – claramente descendente de imigrantes — é o criminoso. 

Essa introdução mostra o que o diretor Asghar Farhadi busca expressar em seu novo filme, que estreou com muita expectativa no Festival de Cannes 2026. Pessoas criam histórias sobre outras pessoas. Através de suposições e imaginação, construímos narrativas sobre os outros que misturam um pouco de realidade com um monte de ficção. Depois de introduzir o tema de maneira indireta nessa abertura, o cineasta iraniano, novamente realizando um longa na França, escancara o conceito quando vamos para o apartamento de Sylvie (Isabelle Huppert). Uma autora que, em meio à luta com câncer de pulmão, busca inspiração para um novo romance, Sylvie adotou o voyeurismo como caminho para montar o que está se transformando num suspense de traições dentro de um escritório. 

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Os três personagens dessa trama dentro da trama, encenada por Farhadi com clima de thriller erótico dos anos 1990, trabalham num estúdio de efeitos sônoros. A mulher, uma verdadeira femme fatale chamada Anna, namora com o jovem e charmoso Christophe, mas começa a ter um caso com o chefe do escritório, Pierre. Quando Christophe descobre, decide tomar medidas violentas. Esse é o esboço que Sylvie leva para sua editora (Catherine Deneuve, em participação especial), que rejeita a ideia, descrevendo-a como o tipo de história que não existe mais na realidade. Furiosa, Sylvie descarta o manuscrito junto com outras coisas que está jogando fora. Ela, descobrimos, está se mudando e venderá o apartamento onde mora, um lar que herdou de seu pai, que por sua vez adquiriu o lugar depois que se divorciou da esposa. A justificativa dele era que o apartamento o deixaria próximo dos filhos – que moravam com a mãe literalmente do outro lado da rua. Mas, segundo Sylvie, seu pai queria mesmo é espiar a vida da ex-esposa com um telescópio.

É este mesmo telescópio que, agora, ela usa para espiar um verdadeiro estúdio de efeitos sonoros que existe no antigo apartamento da mãe, onde as três figuras reais que inspiraram seus personagens estão trabalhando dia e noite num documentário. Interpretados por três estrelas de renome do cinema francês – Virginie Efira, Pierre Niney e Vincent Cassel – eles são: Nati, a simpática mulher que Sylvie transformou em Anna; Theo, que virou Christoph;  e Nicolas, o verdadeiro Pierre. Na realidade, há laços familiares e românticos entre eles, mas nada parecido com o que Sylvie colocou nas páginas que, ao invés de ir para o lixeiro, caiu nas mãos de Adam.

O personagem da primeira cena retorna quando ele é contratado por Laurence, que descobrimos ser sobrinha de Sylvie, para ajudar a tia a limpar o apartamento. Logo ele herda a curiosidade da autora pelos vizinhos, e começa a acompanhar o cotidiano dos mesmos, eventualmente decidindo interagir com eles – às vezes supondo que tudo no livro é fato, às vezes curioso para saber mais sobre eles e continuar a narrativa abandonada por Sylvie – em encontros que ficam incrementalmente bizarros. 

Aqui, Parallel Tales entra em foco, mas perde a mão. Farhadi, até meados do segundo ato satisfeito com o que eram essencialmente brincadeiras que espelhavam realidade na ficção (e vice-versa), decide explorar o que acontece quando essas linhas borram. Claro, há uma série de ideias metalinguísticas que apontam para os personagens, e para o público, como voyeurs, assim como sequências que continuam desafiando nossas interpretações iniciais das pessoas, mas logo fica claro que repetir essa fórmula é a única coisa que o diretor parece interessado em fazer.

O que é uma pena, porque as temáticas acima surgem com um potencial narrativo e dramático imediato, mas que jamais é aproveitado. Farhadi repete inúmeras vezes momentos onde Adam se aventura na vida dos membros do estúdio, em particular na de Anna. Mesmo depois de perceber a natureza do que ele está fazendo, ela tolera de maneira incompreensível um comportamento que o filme semelhantemente se mostra pouquíssimo disposto a interrogar. Claro, ele é confrontado por pessoas como Anna, Theo e Nicolas, mas nunca pelo olhar do diretor. A situação piora quando o escritório que Anna uma vez descreveu para Adam como “vazio em drama” passa a sofrer com dilemas parecidos com os do enredo concebido por Sylvie, e Farhadi desafia nossa capacidade de crer nos acontecimentos de maneira que sabota sua própria arte.

Se Parallel Tales começa com a intenção de usar exatamente as diferenças entre o real e o imaginado para enfatizar as poucas coincidências entre esses universos, a reta final do filme inverte a proposta: os paralelismos se tornam tão óbvios, gritantes e aéreos, que começamos a questionar se o próprio Farhadi perdeu sua linha de raciocínio e, como Adam, não sabe mais distinguir uma coisa da outra. Se Parallel Tales quis sugerir que os contos que geramos em nossa mente são tentações intoxicantes, é o próprio filme que cede aos convites que nos diz para negar.

Em determinado momento, Nicolas atravessa a rua e discute com Sylvie os efeitos da história agora assumida por Adam. É tudo inventado, ele insiste. Tudo mentira. Se este é o caso, a escritora retruca, por que eles estão preocupados? É uma tese que o próprio Parallel Tales torna inválida. Dizendo uma coisa mas fazendo outra, Farhadi se perde nessa casa de espelhos, preferindo criar o máximo de reflexos possíveis só porque parece se divertir com o ato. No fim, o diretor não tem nada a dizer sobre a miríade de ideias que levanta.

Nota do Crítico

Parallel Tales

Histoires parallèles

2026
139 min
País: França, Itália, Bélgica
Direção: Asghar Farhadi
Roteiro: Asghar Farhadi, Saeed Farhadi
Elenco: Isabelle Huppert, India Hair, Pierre Niney, Virginie Efira, Vincent Cassel, Catherine Deneuve, Adam Bessa
Onde assistir:
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