Paddleton

Créditos da imagem: Netflix/Reprodução

Filmes

Crítica

Paddleton

Novo drama cômico da Netflix eleva a relação humana com a morte para outro patamar, sem perder a leveza

Matheus Bianezzi
04.03.2019
13h10
Atualizada em
04.07.2019
17h43
Atualizada em 04.07.2019 às 17h43

O jogo que dá nome ao filme é bastante simples. Para jogar Paddleton, você vai precisar de um muro extenso; um barril vazio; e duas raquetes. O objetivo é rebater a bola na parede e fazer com que ela entre no barril. Mas, como é um jogo inventado pelos protagonistas, a única coisa que você realmente precisa é um companheiro que tope qualquer loucura com disposição - na saúde e na doença.

Sozinhos na vida e com certos problemas sociais, o laço criado pelos vizinhos Andy (Ray Romano) e Mike (Mark Duplass) foi natural. A vida que eles levam é monótona, mas, para eles, o padrão de felicidade criado é o bastante. Praticamente todos os dias eles comem pizza congelada, assistem filmes vintage de kung-fu e tentam adivinhar enigmas bobos. Essa rotina muda de uma hora para outra quando Mike é diagnosticado com câncer no estômago e tem sua expectativa de vida interrompida drasticamente. Com medo de ficar doente num estágio terminal, Mike decide que prefere encerrar sua vida enquanto ainda está razoavelmente saudável e parte em busca dos remédios - disponíveis apenas em uma farmácia a seis horas de viagem -  para realizar um suicídio assistido.

O filme trata a morte sem rodeios nem pitadas de conto de fadas. É crua, efêmera e por isso mesmo sensível em um nível capaz de causar um nó na garganta. Apesar de ser taxado como uma comédia, o lado reflexivo de Paddleton sobrepõe qualquer piada. Elas não servem para causar gargalhadas ao espectador, mas sim dosar durante todo o enredo o nível de tensão que um assunto tão delicado proporciona. Ao mesmo tempo, definem a amizade de ambos: tão pura e leve quanto uma brincadeira; e tão profunda e irrevogável quanto a morte.

Com uma química impressionante, não seria uma surpresa caso anunciassem que o filme é uma biografia de Ray Romano e Mark Duplass - tirando a parte do câncer. A personalidade dos protagonistas parece ter estado trancada no coração dos atores durante anos, esperando a hora certa de sair. Cada fala é orgânica e convincente, e não seria um exagero dizer que a produção é o melhor papel de suas respectivas carreiras. Geralmente é difícil criar empatia por personagens que são complicados, afinal ambos têm costumes muito singulares, mas a dupla de atores contorna esse obstáculo com uma facilidade ímpar. Quando você menos espera, está vivendo cada um dos dramas expressados por Andy e Mike. Pode chorar, pode rir, e qualquer que seja o sentimento, será tão humano quanto o filme.

Segundo o ator e também roteirista Mark Duplass, foi providencial fazer um longa onde uma amizade íntima e intensa entre dois homens não é tratada como uma piada. É possível explorar amizades platônicas em frente às câmeras sem um tom discursivo irônico, querendo dar a entender que são dois homens mal resolvidos com suas identificações sexuais. Eles apenas se amam, da forma mais genuína e fraternal e isso nada tem a ver com a masculinidade de cada um. Felizmente, esse pensamento não ficou só na cabeça do roteirista e deu vida a um filme forte, amável e tão singelo quanto um jogo de Paddleton.

Nota do Crítico
Ótimo