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Filmes
Crítica

Overman tem o único superpoder que importa: uma boa história

Adaptação de Laerte conquista com linha dramática mais eficiente do que parece

Omelete
3 min de leitura
22.10.2026, às 06H00.
Cena de Overman: O Filme (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de Overman: O Filme (Reprodução)

Nem toda piada em Overman: O Filme funciona tão bem quanto gostaria. O diretor Tomás Portella não tem lá tanta experiência com comédia, afinal – ele é mais conhecido pela ação e tensão de Impuros e Operações Especiais. Talvez por isso, o timing de alguns lances de humor do filme ultrapassa a linha entre o repulsivo e o divertido, e isso é especialmente verdadeiro quando se trata dos impulsos mais básicos do personagem título (Caco Ciocler), um super-herói alcoólatra, mulherengo, sujo e egocêntrico, incapaz de dar um jeito na própria vida e eternamente perseguindo uma glória que há muito lhe escapou… custe a quem custar.

Não é, enfim, um protagonista que se agracia fácil com o público, mas esse nem é exatamente o problema. O problema é que Portella e seus colegas de roteiro (Arnaldo Branco e Leandro Soares) parecem inicialmente entender a criação original de Laerte mais como uma sátira amarga de super-heróis (pense The Boys ou Hancock), e menos como uma válvula de escape para as ideias mais precisas de brasilidade da grande cartunista. É claro que Overman é uma tiração de sarro com o ufanismo e a onipotência tóxica do Superman, mas é também e principalmente uma tentativa de construir para o Brasil um universo que o reflita em arte pop como a Marvel e a DC fazem pelos EUA.

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A boa notícia é que, no meio do caminho, Overman: O Filme parece realizar exatamente o que está perdendo de vista. E uma vez que a trama do longa engata a quinta marcha, com Overman contratado pelo governo do Estado e precisando lidar com ameaças como o Maníaco Flatulento (Caio Riscado) e a Pane (Marina Provenzzano, excelente), além da possibilidade de dividir os holofotes com a parceira Mulher-Cachorro (Karina Ramil) sob as ordens de um governador para lá de suspeito (Otávio Müller), Portella e cia. tomam prumo e apostam no carisma abrasileirado de todo um ecossistema de personagens, ao invés de focar com tanto afinco no desajuste de um.

A aposta funciona tanto que até o arco de personagem de Overman fica mais claro a partir daí. Numa imagem distorcida do Homem de Ferro do MCU, misturado com jornada de protagonista de qualquer cinebiografia musical, o herói mergulha em uma espiral de degeneração só para, é claro, sair de lá com uma realização pessoal. Do topo do mundo ao fundo do poço, e de volta outra vez. É uma linha dramática surpreendentemente eficiente para um filme que se apoia tanto no distanciamento do camp e da comédia farofada – e um procedimento que também suaviza o impacto das escolhas mais extremas que o filme faz no campo do humor.

Não é uma questão de nos fazer esquecer que Caco Ciocler (em performance exemplarmente cartunesca) está usando músculos de isopor gigantescos cobertos por um collant roxo esticado ao limite, mas de vender a história desse personagem absurdo tão bem que o seu absurdo se torna apenas mais um detalhe dele. Lá pela entrada do terceiro ato de Overman: O Filme, as relações dos personagens começam a se tornar a fonte tanto da comédia quanto do drama, e o próprio filme parece ter se esquecido da fantasia de sua premissa, ou de sua intenção de parodiar qualquer coisa que não seja as vicissitudes de suas próprias criações.

Assim, tão audacioso em seus conceitos quanto é facilmente identificável neles, Overman: O Filme vai trazendo o público para o seu lado com inteligência e carisma. E se esse não é o sinal de uma boa história, eu não sei qual é.

Nota do Crítico

Overman: O Filme

Duração: 86 min
Direção: Tomás Portella
Roteiro: Leandro Soares, Arnaldo Branco, Tomás Portella
Elenco: Caco Ciocler, Otávio Müller, Victor Lamoglia, Karina Ramil, Maria Lucas, Raphael Logam
Onde assistir:

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