George MacKay em 1917, de Sam Mendes

Créditos da imagem: 1917/Divulgação

Filmes

Crítica

1917

Filme de Sam Mendes indicado ao Oscar 2020 retrata o alto custo do heroísmo em jornada emocional e autêntica

Arthur Eloi
23.01.2020
18h10
Atualizada em
23.01.2020
18h38
Atualizada em 23.01.2020 às 18h38

Não existe relação mais duradoura do que a entre guerras e a indústria audiovisual. Grandes conflitos já foram retratados de todas as formas possíveis - de ensaios sobre a condição humana na Guerra do Vietnã às incontáveis fases de desembarcar nas praias do Dia D nos games. É isso que torna o indicado ao Oscar 1917, de Sam Mendes, tão impressionante. Ele traz autenticidade e emoção a um embate tão complexo quanto a Primeira Guerra Mundial.

Os soldados Blake (Dean-Charles Chapman) e Schofield (George MacKay) são escolhidos pelo exército britânico para atravessar a Terra de Ninguém em menos de um dia para entregar uma mensagem a um batalhão aliado, avisando-o de uma armadilha. O fracasso custaria a vida de 1600 soldados, incluindo o irmão de Blake. É uma premissa bastante “vídeo-gamística”, uma quest de objetivo simples e desafios claros. O longa não tem medo de assumir que sua narrativa se espelha nos games - e nem deveria. Afinal do primeiro Medal of Honor (1999), criado por Steven Spielberg, aos inúmeros Call of Duty e Battlefield, os jogos tiveram que desenvolver linguagem própria para contar histórias de guerra em detalhes e imersão não permitidos por nenhum outro meio. É certo que houve bastante influência de filmes clássicos nesse processo, mas faz todo o sentido que eventualmente os games retornassem o favor. É justamente essa estrutura de missão que faz a corrida contra o tempo funcionar, que segue até mesmo as noções de checkpoints para dar um respiro entre os momentos de ação intensa.

Uma crítica comum aos jogos de guerra é a fetichização da violência (principalmente pelo fato de que é o jogador que puxa o gatilho). 1917 segue no caminho contrário, e dá muito mais destaque ao custo humano do conflito do que ao sangrento espetáculo. Com o relógio correndo, Schofield e Blake correm pelas trincheiras aliadas para enfim começarem sua jornada. Mas cada pequena decisão impulsiva que precisam tomar - como seguir pela contramão, ou entrar em áreas restritas para suas patentes - são o suficiente para fazer até seus colegas militares se voltarem contra eles e puxarem brigas. Naquela altura, faltando mais de um ano para o fim do conflito, a Primeira Guerra Mundial já tinha deixado incontáveis vítimas e um rastro de destruição pela Europa. Os grandes tiroteios haviam esfriado, com ambos os lados enfurnados em trincheiras gélidas tão mortais quanto os campos de batalha, sem suprimentos ou atenção médica.

É evocando esse contexto histórico através da sutileza que o impacto emocional do filme se estabelece. Quando a dupla sobe à Terra de Ninguém, a vastidão da ruína fica clara enquanto atravessam o campo lamacento e devastado em um semi-silêncio opressor, apenas com alguns toques da sombria trilha de Thomas Newman. O longa brilha nesses momentos que desperta o horror da guerra sem se tornar explicativo. A obra é um exercício em evitar a obviedade do subtexto e os atores entendem isso muito bem. Chapman e MacKay se entregam fisicamente aos papéis, algo ainda mais exigente por ter sido rodado em longos takes para criar a impressão de plano-sequência. Mas quem melhor representa a ideia é Richard Madden. O ator de Game of Thrones tem uma pequena, mas importante, participação na obra. Mesmo a conclusão, que poderia ser explosiva e catártica, investe em pontuar a dor e a humanidade de forma bastante contemplativa, sem recorrer a exageros.

O que complementa muito bem a ação e emoção de 1917 é que Mendes escolhe conduzir a história através da ilusão de um plano-sequência. Mesmo que os cortes não sejam bem escondidos, o diretor subverte a fluidez da técnica para garantir que o espectador sinta o mesmo sufoco que os soldados que tentam conquistar um objetivo impossível. A câmera entende a dualidade natural de obras de guerra, que alternam entre discurso humanitário e um certo voyeurismo pela violência. Dessa forma - novamente lembrando a conexão com os games - o espectador é colocado nos ombros de Schofield durante um duelo com um atirador de elite, mas também passeia pelos cenários, entra nas trincheiras, no lamaçal e na traseira de um caminhão militar. A todo momento há algo de interessante na tela, mesmo nos momentos de silêncio narrativo. Isso é triunfo de Roger Deakins (Blade Runner 2049), um dos melhores diretores de fotografia da atualidade. 1917 sequer chega a ser um de seus trabalhos mais notáveis, e mesmo assim é de um altíssimo nível técnico e artístico. Uma batalha noturna nas ruínas de uma cidade francesa, parcialmente iluminada pela destruição do fogo e a luz momentânea de sinalizadores, são algumas das imagens mais marcantes e belas (de uma forma deturpada) dentre os filmes que disputam Melhor Fotografia no Oscar 2020.

Retratar a Primeira Guerra Mundial não é tarefa fácil. Diferente de sua sucessora, é um conflito marcado pela confusão, mudanças políticas questionáveis e poucos “vilões”. Não há heroísmo nas trincheiras e na Terra de Ninguém e 1917 retrata isso muito bem ao demonstrar em detalhes o alto custo humano por trás de todo combate histórico. Após quase morrerem soterrados logo no início da jornada, Schofield e Blake refletem sobre o máximo de honra que receberão por colocarem suas vidas em risco: uma medalha. “É só um pedaço de lata. Não faz diferença pra ninguém”, reclama Schofield. “Não é só um lata. Também tem um pedaço de fita”, retruca Blake. Da forma que o longa imerge o público nos mesmos maus bocados que a dupla, é difícil sair sem concordar que medalha alguma vale tanto sofrimento.

Nota do Crítico
Ótimo