Mackenzie Davis, Finn Wolfhard e Brooklyn Prince em Os Órfãos

Créditos da imagem: Os Órfãos/Divulgação

Filmes

Crítica

Os Órfãos

Boa direção é desperdiçada em filme de terror acomodado ao extremo, de sustos baratos e conclusão anticlimática

Arthur Eloi
28.01.2020
17h39
Atualizada em
29.01.2020
10h07
Atualizada em 29.01.2020 às 10h07

Mansões assombradas e fantasmas são praticamente a base do horror, mas é preciso entender que já não rendem mais tantos sustos quanto em seu auge. A maior qualidade do terror é a capacidade de adaptação aos medos contemporâneos, sempre se reinventando. Assim as obras modernas que usam elementos clássicos precisam de algum diferencial, algo que fuja de décadas repletas dos mais variados trabalhos e abordagens para oferecer originalidade. Os Órfãos, apesar de ter tudo para funcionar no papel, peca justamente neste aspecto para entregar mais do mesmo.

A trama acompanha Kate (Mackenzie Davis), recém-contratada como governanta da Mansão Bly, onde terá a tarefa de lecionar duas crianças órfãs que lá moram, a inocente Flora (Brooklyn Prince) e o jovem Miles (Finn Wolfhard). Quanto mais tempo passa lá, mais coisas estranhas começam a acontecer e ela se vê ameaçada por uma presença fantasmagórica. Se a sinopse parece familiar é porque se trata de uma adaptação de um dos maiores representantes deste subgênero, A Outra Volta do Parafuso, de Henry James. O romance de 1898, influente no horror como um todo, definiu a estrutura e os temas que uma boa história de mansões assombradas deve ter, como o cenário grandioso e cheio de segredos e manifestações do fantasma que desestabilizam os personagens aos poucos. A obra original já teve desde adaptações diretas, como Os Inocentes (1961), e também outras levemente inspiradas, como Os Outros (2001). Os Órfãos, porém, fica no meio termo.

Por mais que puxe a premissa das páginas de James, a forma como a protagonista se relaciona com as crianças e a funcionária sra. Grose (Barbara Marten) é severamente mais hostil que no livro. Ao invés de proteger Flora e Miles da assombração, Kate é praticamente antagonizada pelos dois e pela colega. Não que Os Órfãos precisasse ser fiel ao material-base, especialmente quando este tem mais de 100 anos e já foi adaptado à exaustão, mas essa nova configuração cria poucas possibilidades narrativas. É a afeição da personagem principal pelos órfãos que justifica sua permanência na casa mesmo quando tudo passa a dar errado.

Essa falta de motivação é justificada com a exploração do passado de Kate e da relação com sua mãe, na tentativa de contextualizar alguma “noção de dever” na jovem. Isso sequer é desenvolvido além de algumas cenas no começo, e cria um buraco lógico muito difícil de ser ignorado. O roteiro dos irmãos Chad e Carey W. Hayes (Invocação do Mal, A Casa de Cera) é vazio e seguro. O máximo que se arrisca é em usar a inusitada agressividade de Miles para discutir masculinidade tóxica, já que o garoto é bastante influenciado por Quint (Niall Greig Fulton), antigo criado do local. Assim como o restante da escrita, essa tentativa é realizada de forma óbvia e superficial.

O elenco representa bem a fraqueza do texto, já que não desperdiça seu talento com um material tão decepcionante. Mackenzie Davis tem o que é necessário para interpretar uma governanta empática em meio ao caos, e Brooklyn Prince é adorável como Flora, mas o longa nunca explora os pontos fortes de ambas. Já Finn Wolfhard sequer se compromete com o papel, como fez em It: A Coisa (2017) ou Stranger Things, e cria um Miles que pode muito bem ser definido apenas como estranho e irritante.

É uma pena que Floria Sigismondi tenha um roteiro tão medíocre para trabalhar. A diretora não é muito conhecida por longa-metragens (esse é o seu segundo), mas tem experiência nas mais diversas áreas, como comandar videoclipes para David Bowie e Marilyn Manson, ou fotografar editoriais de moda. Seu repertório é evidente e segura o espectador mesmo durante o tédio que é a narrativa, mas não tem força o bastante para compensar o elo mais fraco. Aliada com o cinematógrafo David Ungaro (A Prayer Before Dawn), Sigismondi dá estética artística a um terror extremamente comercial. O conflito entre intenções poderia sim criar algo único se o lado menos ousado não pesasse mais. A boa direção da cineasta acaba desperdiçada em um filme que não quer mesmo sair da zona de conforto.

Os Órfãos dificilmente é um filme terrível - há exemplares bem piores -, mas é nada memorável, e se perderia facilmente entre outros tão pouco inspirados, genéricos e de sustos baratos quanto ele. Infelizmente o mais marcante da obra é o quão anticlimática sua conclusão é, que interrompe o clímax ao ponto de parecer até problema de projeção de tão inusitada. O subgênero de mansões assombradas sobrevive em outros lugares, como por exemplo em A Maldição da Residência Hill - que, ironicamente, também adaptará A Outra Volta do Parafuso em sua segunda temporada. O horror gótico pode ter perdido fôlego ao longo dos anos, mas a julgar por produções medianas como essa só bate o prego no caixão antes da hora.

Nota do Crítico
Regular