Cena do filme Os Miseráveis

Créditos da imagem: Lyly Films/Divulgação

Filmes

Crítica

Os Miseráveis

Filme francês do Oscar tira sua força do elenco amador e do seu lugar de fala

Marcelo Hessel
15.01.2020
15h31
Atualizada em
17.01.2020
19h35
Atualizada em 17.01.2020 às 19h35

O despudor com que o cinema francês encara seus temas e a fisicalidade dos seus atores está no cerne de Os Miseráveis, um filme de estreante que tira vantagem das características mais imediatas da complexidade étnica da França: negros, mestiços, árabes e brancos se combinam num registro que, pela própria seleção do elenco do filme, já denota uma urgência de pontos de vista conflitantes.

Das crianças moradoras dos conjuntos habitacionais às margens de Paris, até o trio de policiais que protagoniza a trama (eles próprios com traços étnicos distintos), o melhor de Os Miseráveis está nessa escalação - uma mistura de atores profissionais e amadores, muitos deles habitantes da própria vizinhança que o filme retrata. O título pega emprestado do clássico de Victor Hugo a ambientação no subúrbio de Montfermeil, trazida para os dias de hoje, e acompanha o primeiro dia de trabalho de um policial, tensionado por um incidente com um furto envolvendo as crianças locais.

Envolver a comunidade num registro social próximo do documental não é novidade, e filmes como Entre os Muros da Escola provam, ao se expandir nos cinemas para além das fronteiras da França, que esse tipo de cinema é recebido com interesse internacionalmente. No caso de Os Miseráveis, o corroteirista e diretor Ladj Ly, parisiense de família imigrante do Mali, mora em Montfermeil até hoje, e o elenco inclui seu filho, Al-Hassan Ly, que faz o garoto que controle o drone. Esses dados dão a Os Miseráveis um selo de autenticidade que, combinado com a boa direção de elenco, carrega um filme no geral bem protocolar.

Em nenhum momento o filme parece se deixar levar pela espiral de caos que a trama suscita. As caracterizações dos personagens (cada um deles pensado para tipificar alguém, do branco racista ao muçulmano politicamente e espiritualmente engajado) e as viradas de roteiro (como a enquadrada do policial novato nos veteranos) seguem um receituário seguro e "de respeito", preocupado em demarcar temas e levantar questões sem que isso tenha muito a ver com os potenciais da filmagem a quente com câmera na mão. A filmagem nervosa, colada aos corpos do elenco jovem, chama pra si a responsabilidade no bom e tenso clímax, mas no geral fica a impressão de que Os Miseráveis está se conformando mais em encontrar imagens-síntese de impacto (como o menino com o molotov) do que em esgotar as possibilidades dramáticas dessas imagens.

O resultado é um filme que pode chamar atenção inicialmente pela especificidade, mas ao final parece mais uma história muito atual que procura essencialmente conclusões de senso comum (a violência policial é social, o apartheid está ligado à invisibilidade etc.). Os Miseráveis ganhou - em decisão dividida com Bacurau - o Prêmio do Júri de Cannes, o mesmo troféu que oito anos antes o festival francês deu ao drama Polisse; em comum, os dois longas locais reivindicam um olhar carregado de urgência e relevância social e, ao fazer essa média com a produção engajada do país, Cannes também tem sua parcela de previsibilidade.

O próprio interesse de tratar Os Miseráveis como um suspense policial internacional vai só até certo ponto. No fim das contas, estamos basicamente diante de um Dia de Treinamento com policiais de pochete, e para a sensibilidade do brasileiro urbano acostumado com um Estado policial e precariedades generalizadas, os parisienses talvez ainda pareçam infinitamente mais civilizados e cerimoniosos.

Nota do Crítico
Bom