Filmes

Crítica

Os Infiltrados | Crítica

Os infiltrados

Mario "Fanaticc" Abbade
09.11.2006
01h00
Atualizada em
21.09.2014
13h20
Atualizada em 21.09.2014 às 13h20
Os infiltrados
The departed
EUA, 2006
Policial - 142 min

Direção: Martin Scorsese
Roteiro: William Monahan, baseado em original de Felix Chong e Alan Mak

Elenco:
Leonardo DiCaprio, Matt Damon, Jack Nicholson, Mark Wahlberg, Jack Nicholson, Vera Farmiga, Anthony Anderson, Alec Baldwin, Ray Winstone, James Badge, Martin Sheen, David OHara, Mark Rolston, Kevin Corrigan

Martin Scorsese é um dos maiores cineastas da história. Em qualquer lista concebida pela crítica especializada ou pelas instituições relevantes sobre os melhores filmes já feitos, consta alguma de suas produções. Infelizmente ele ainda não teve seu nome reconhecido por Hollywood. Toda vez que concorreu ao Oscar, o prêmio escapou de suas mãos já na prorrogação. Com Os Infiltrados (The Departed, 2006) talvez tenha chegado a hora. São 152 minutos de pura técnica e beleza. O filme já reservou seu espaço em futuras listas entre as obras-primas da sétima arte.

A história é baseada no eletrizante Conflitos Internos (Infernal Affairs, 2002), sucesso de Hong Kong co-dirigido por Alan Mak e Andrew Lau que ainda teve duas continuações. Segundo Scorsese, ele e o roteirista William Monahan resolveram não assistir ao original e trabalharam em cima de uma tradução do roteiro de Mak e Felix Chong. O argumento é basicamente o mesmo, com algumas pequenas mudanças e reviravoltas. A grande diferença é que Scorsese o transformou em um legítimo produto com a sua assinatura.

A narrativa é recheada de tensão e violência. O que antes era uma guerra entre policiais e criminosos em Hong Kong, se tornou um combate entre a máfia irlandesa e a polícia de Boston. A premissa continua sendo sobre dois espiões infiltrados: um na gangue dos bandidos e o outro dentro do departamento de polícia. Ambos têm que participar de uma rede de intrigas, traições e mentiras. A honra e a ética são colocadas de lado. A linha entre o paraíso e o inferno fica tênue. Tanto que o título original no mercado asiático era Mou gaan dou, o nível mais baixo do inferno no budismo. No filme de Scorsese esses homens são comparados a ratos, termo usado para denominar traidores nos Estados Unidos.

O filme abre com uma frase que já nasce antológica: Eu não quero ser um produto do meio-ambiente. Eu quero que o meio-ambiente seja um produto meu. Ela é dita por Frank Costello (Jack Nicholson). Estamos no começo dos anos 80 e Costello é um mafioso irlandês. Ele adota como protegido o garoto Colin Sullivan. Suas intenções não são as melhores possíveis. O objetivo foi criar um relacionamento com alguém que pudesse servi-lo no futuro. Acompanhamos o crescimento de Sullivan (Matt Damon). Aluno número um em todos os estabelecimentos de ensino que freqüentou. Acaba entrando para a academia de policia e se forma com louvor. Com o tempo consegue um lugar de destaque na força. Sullivan se torna o informante perfeito para ajudar Costello em sua escalada de crimes. Uma verdadeira cobra colocada no paraíso.

Ao mesmo tempo conhecemos Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), outro que também entra para a academia de polícia. A diferença é que sua família tem um histórico criminal e ligações com a máfia irlandesa. Isso o torna o perfeito candidato para ser infiltrado na gangue de bandidos pelo chefe de policia Oliver Queenan (Martin Sheen). Costigan é a contraparte de Sullivan, uma espécie de anjo dentro do inferno. Todas essas cenas acima formam um pequeno prólogo de seqüências magistralmente registradas por Scorsese. As cenas de Sullivan começam fechadas e se abrem. As de Costigan são abertas e se fecham. Com isso percebe-se que o mundo de Sullivan ganhou outra dimensão, contrário ao de Costigan.

Por quanto tempo um homem consegue esconder sua verdadeira identidade e seu caráter? Ambos, Sullivan e Costigan, são assombrados pelos mesmos dilemas morais. Scorsese ainda cria mais um fator de conexão entre os dois espiões no triangulo amoroso com a personagem da psicóloga da polícia, Madolyn (Vera Farmiga). E nesse ponto, os protagonistas equilibram a balança. Interessante que ambos possuem uma figura paterna. Sullivan em Costello e Costigan em Queenan. Scorsese desenvolve esse relacionamento baseado na emoção e no instinto de sobrevivência. São dois mundos contrastantes, mas que precisam um do outro para existir.

Para que o confronto entre duas realidades tão dispares funcionasse, era necessário atores que pudessem dar credibilidade a sentimentos obscuros. Scorsese tira o melhor de cada um. Em seu primeiro trabalho com o diretor, Nicholson está brilhante. Sua presença na tela é hipnótica. Suas falas são engraçadas, pelo jeito que ele as pronuncia. Um talento nato para ser irônico e subversivo. O público ri, mesmo sabendo dos mais diversos atos nefastos realizados por ele. DiCaprio e Damon agem distintamente: o primeiro mais emocional e desesperado, Damon mais dissimulado. Ele tem um caminho mais difícil que DiCaprio, pois acaba provocando ódio no espectador. Mas com expressões suaves ele dá conta do recado com extrema eficiência.

Todas as interpretações ganharam em dimensão devido à colaboração da equipe técnica. A fotografia de Michael Ballhaus enriquece cada plano com uma cor sombreada, sugerindo ambigüidade em diversos personagens. Fica a impressão de que nesse universo desenvolvido por Scorsese existem outros ratos. A edição de Thelma Schoonmaker corrobora essa premissa com uma série de eventos que, por nenhum instante, deixam o espectador confuso. Pelo contrário, a curiosidade é aguçada a cada nova seqüência. Mesmo sendo encenado nos dias de hoje, sentimos em Os Infiltrados um certo clima de produção ambientada nos anos 70. Época que os filmes retratavam pessoas amorais e ambíguas sem muita preocupação com o politicamente correto. Gente que fazia sexo, xingava, matava e morria violentamente de forma extremamente realista. Tudo isso embalado por uma mistura de rock e opera na trilha sonora.

Muitas de suas cenas se enriquecem visualmente com composições famosas dos Rolling Stones, Pink Floyd e John Lennon. O mesmo estilo de Cassino e Os Bons Companheiros, outros dois filmes do cineasta. Por sinal, uma seqüência com Costigan e dois mafiosos italianos é visivelmente inspirada em Os Bons Companheiros. Impossível não traçar paralelos com a cena em que o mafioso recém-saído da prisão apanha por ter humilhado o personagem de Joe Pesci. As motivações não são as mesmas, mas a violência em ambos os casos é um exercício de estética. Da mesma a forma, na cena do elevador envolvendo Costigan e Sullivan, o orgasmo visual acontece em segundos. A catarse é instantânea.

Os Infiltrados marca a volta de Scorsese ao caos urbano, ao mundo do crime repleto de gângsteres trágicos, ambiente em que ele é mestre. Mas dessa vez a ação também é concentrada no dia-a-dia dos policiais. Pois ratos não são um privilégio exclusivo dos bandidos.

Nota do Crítico
Excelente!