Filmes

Crítica

Os Incríveis 2

Brad Bird continua a refletir sobre a vida adulta, mas não esquece de divertir o público

Natália Bridi
28.06.2018
10h25
Atualizada em
04.07.2018
18h50
Atualizada em 04.07.2018 às 18h50

Rever Os Incríveis pode ser desconcertante. A lembrança lúdica da família de heróis assume novos contornos quando a idade assegura a experiência para entender os temas abordados pelo diretor e roteirista Brad Bird. Na animação da Pixar lançada em 2004, superpoderes e trajes fantásticos eram um pretexto para falar sobre a desilusão da vida adulta.

Passados quatorze anos, Bird retoma a história da família Pêra com o mesmo equilíbrio: diverte as crianças enquanto intriga os adultos. Mais uma vez proibidos de ser quem são, os heróis precisam lidar com outra crise. Desta vez, a Mulher-Elástica é escolhida para uma vida de aventuras, enquanto Beto é deixado com os afazeres do lar. Essa dinâmica coloca os personagens em situações que respondem ao primeiro filme. Ela faz as pazes com o seu lado heroína, enquanto ele precisa confrontar a sua antiga resistência às obrigações familiares.

Não é apenas uma questão de troca dos papéis. Bird reflete sobre o que cria padrões destrutivos em relacionamentos, amorosos ou não. Quando um tem dificuldade em se comprometer com o lado chato da vida - emprego, responsabilidade, horários, contas -, o outro precisa assumir as tarefas. Nesse raciocínio, o mundo dos super-heróis representa os sonhos e desejos que afastam homens e mulheres de questões práticas. É o que leva aos conflitos entre Beto e Helena Pêra desde o primeiro filme e também se aplica aos irmãos Wilson e Evelyn Deavor no segundo longa. Ou até mesmo Flecha e Violeta, incapazes de chegar ao um acordo sobre quem deve cuidar de Zezé e quem deve salvar o dia.

A resposta de Os Incríveis para essa questão está na premissa dos dois filmes: uma família de heróis. A felicidade está no meio-termo, entre atender os próprios desejos e cumprir com as obrigações, o que só é possível com cooperação. Quando se trabalha em equipe, há espaço para todos. Se no primeiro filme o Sr. Incrível precisava reconhecer o próprio egoísmo, agora é a vez da Mulher-Elástica entender que tudo pode funcionar sem que ela esteja por perto.

No tempo em que constrói esse argumento, Bird também brinca com os poderes dos seus personagens em cenas de ação. Como a habilidade dos heróis casa com suas personalidades, todo ato físico ganha contornos psicológicos, seja na capacidade da Mulher-Elástica em se desdobrar para resolver problemas ou na evolução de Violeta, que deixa de usar a invisibilidade como um esconderijo para a timidez. A escala pode ser grandiosa, como na batalha com o Escavador, ou reduzida, como na luta entre Zezé e um guaxinim no quintal, mas nada é gratuito.  

A animação em computação gráfica evoluiu muito em quatorze anos, mas o novo longa é fiel aos traços angulosos do original. É na textura que Os Incríveis 2 se sobressai, aproveitando a tecnologia para aproximar o público do seu mundo fantástico. É possível reconhecer padrões levemente realistas de tecido, pele, cabelos, metal e água, o que dá uma qualidade  “palpável” à experiência. 

Os Incríveis 2 é capaz de falar sobre maturidade, responsabilidade, família e realização pessoal de forma tão natural que seus temas podem passar despercebidos. Essa pode ser a divertida história de um grupo de heróis carismáticos lutando para usar seus poderes, incluindo um bebê fofo e toda a sabedoria ranzinza de Edna Moda, ou pode ser muito mais. O que o torna especial, assim como seu antecessor, é a capacidade de ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Nota do Crítico
Excelente!