Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro

Créditos da imagem: Galeria Distribuidora/Reprodução

Filmes

Crítica

Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro

Danilo Gentili e Cia. fazem o terrir autoparódico sem correr riscos

Marcelo Hessel
29.11.2018
19h25

O horror é um gênero que historicamente se presta facilmente ao autoparódico pelo que tem de excessivo - no tom, na escatologia, nos temas. O diretor Fabrício Bittar está em terreno seguro e testado, portanto, quando o seu Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro logo de cara já assume uma postura de comédia autorreferencial. De todos os filmes estrelados por webcelebridades brasileiras - produções que ademais já têm em comum essa tendência à metalinguagem, como Contrato Vitalício e Internet - O Filme - o de Bittar talvez seja aquele que a priori pode funcionar melhor, então, pela escolha consciente que faz pelo autoparódico dentro do terrir (subgênero que por si já tem uma tradição brasileira longeva).

A nostalgia de matriz oitentista é o ponto de partida. Danilo Gentili, Léo Lins, Dani Calabresa e Murilo Couto fazem os integrantes de um canal de YouTube que investigam fenômenos paranormais e deparam, numa escola, com a Loira do Banheiro. Assim como em Como se Tornar o Pior Aluno da Escola, parceria anterior de Gentili e Bittar, a ideia é contextualizar a puerilidade do humor do apresentador no ambiente em que ela prospera: a esfera do bullying escolar, vendida nesses dois filmes como uma evocação simpática dos clássicos de Sessão da Tarde com que crescemos. No reforço de sua imagem de mau aluno, mau adulto e mau amigo, Gentili zela por seu público e cuida do seu branding.

Nesse ponto, Os Exterminadores do Além Contra a Loira do Banheiro encontra o seu impasse, porque todo o esforço de autoparódia está acontecendo no filme em paralelo com essa defesa de reputação. Como rir de si mesmo, então, se a preocupação principal é se blindar e se antecipar ao juízo alheio?

Na prática, o que se vê no filme é que o autoparódico fica na esfera do terrir e não atinge as personas: o elenco e os realizadores encontram mil formas de receber jorros de gosma e sangue falso (e a precariedade tem seu apelo quando se confunde com amadorismo), enquanto o potencial de sátira é diluído em tiradinhas de senso comum, como zoar essa grande entidade que é o youtuber brasileiro ao invés de personalizar o paródico. Quando essa personalização acontece, sempre envolve a questão da reputação e do comprometimento, como quando Dani Calabresa diz que se precisasse mostrar os peitos estaria na Novela das 8 e não com os losers do YouTube.

Essa preocupação com a reputação extrafilme é não apenas latente como inclusive vira texto numa fala de Antonio Tabet, quando ele diz que não aparece o suficiente no filme a ponto de comprometer sua imagem. Depois de um tempo, essa se torna a principal questão de um filme que, no mais, se faz de muitas camadas de brincadeiras de metalinguagem. E uma vez que vira a questão central, portanto, o sucesso do filme vai depender muito de como se lida com esse constrangimento.

E daí Exterminadores do Além não explora esse potencial. O humor autodepreciativo não envolve uma desconstrução de imagem em cena; quando Léo Lins se envolve romanticamente com a professora mais velha, por exemplo, ele não a beija (gesto que selaria a piada de si mesmo) e assim não compromete sua hombridade. Gentili é quem mais se esmera para defender sua reputação de pilar da incorreção política, seja na caracterização (o cigarro sempre na boca evoca o Dan Aykroyd de Ghostbusters), seja no texto (a fixação na fase anal gera uma variedade de xingos de quinta série), seja nos desdobramentos da trama (de inclinação francamente misógina no final). É compreensível e até esperado que o comediante administre aqui sua persona pública, mas isso joga contra o melhor potencial que Exterminadores do Além tinha.

Nota do Crítico
Regular