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Os 8 Odiados | Crítica

Tarantino volta ao pequeno filme de câmara mas a tentação da grandiloquência só aumenta

Marcelo Hessel
06.01.2016
11h42
Atualizada em
29.06.2018
02h44
Atualizada em 29.06.2018 às 02h44

Quentin Tarantino gosta de dizer que vai parar de dirigir depois de dez filmes, o que força ainda mais uma tendência do público e da crítica de enxergar seus longas dentro do contexto de sua obra. Nesse sentido autorista, Os 8 Odiados (The Hateful Eight, 2015) é interessante porque marca tanto um passo para trás como outro adiante.

Para trás porque, embora comece com um sinistro e estrondoso tema de Ennio Morricone sugerindo um faroeste de travessia com um clímax apoteótico, Os 8 Odiados está mais próximo do filme de câmara que marcou a estreia de Tarantino como diretor, Cães de Aluguel. Este seu novo western funciona como um longo "impasse mexicano" entremeado por vaivéns no tempo, como o longa de 1992. De qualquer forma, o clímax apoteótico continua lá - talvez Tarantino nunca abra mão dele.

A trama se passa alguns anos depois do fim da Guerra da Secessão; as feridas dos Confederados, mais abertas do que nunca. Embora o oficial John Ruth (Kurt Russell) seja o personagem que faz a trama andar, ao levar a fugitiva de justiça Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh) para ser enforcada em Red Rock, é o Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) o verdadeiro protagonista. O militar negro ainda goza da vitória diante dos escravagistas na guerra, e mostra sempre, para quem quiser ver, a carta que ele recebeu de Abraham Lincoln, supostamente um confidente seu de correspondências.

Quando esses personagens se reúnem a outros tantos numa noite, num armazém, para se refugiar de uma tempestade de neve a caminho de Red Rock, é o Major Marquis - na voz ao mesmo tempo sarcástica e grave de Jackson, o melhor intérprete dos monólogos rebuscados de Tarantino - que se torna o centro da ação, ao redor de quem orbitam figuras-símbolos da formação da identidade do país, do velho colono sulista ao imigrante mexicano. É como se a carta do presidente outorgasse ao major o protagonismo na refundação.

Se todo faroeste americano trata da construção dessa identidade, de levar a ordem aonde não havia civilização (e Django Livre, também com suas cartas assinadas, e com seu zigue-zague hipnótico entre o legalismo e o vigilantismo, não era exceção), Os 8 Odiados problematiza a função da violência como motor dessa construção.

Porque o "impasse mexicano" é como a parábola bíblica do pecado original: basta que um dos envolvidos, com sua arma apontada aleatoriamente, dê o primeiro disparo, dê aquela mordida gostosa na maçã, para que a possibilidade primeira de um acordo fique definitivamente impossibilitada. Desse ato surge um outro acordo, porém, porque adquirir uma consciência do pecado pode ser, para o homem, tanto uma emancipação quanto uma nova responsabilidade.

Esse é o passo adiante que Tarantino dá em Os 8 Odiados, numa caminhada que notadamente vem sendo trilhada à medida em que seus filmes de vingança ficam mais complexos. Se a violência começa comicamente cartunesca (no olho roxo de Daisy que parece desenhado a mão) e passa pela catarse gore (produzida pelo supervisor de efeitos de Walking Dead, Greg Nicotero, velho colaborador de Tarantino), porque afinal de contas o cineasta problematiza a violência sem deixar de usá-la primeiramente como válvula de escape, a impressão que fica, ao fim, é a da melancolia.

É uma melancolia parecida com aquela de Kill Bill, um épico de destruição que termina, depois de quatro horas, com um casal que só consegue lamentar o caminho que trilhou. O choro de desabafo da Noiva ao fim de Kill Bill já deveria servir de evidência, há uma década, para quem ainda acha que Tarantino recorre à violência em seus filmes de forma inconsequente. A diferença em Os 8 Odiados é que, à medida em que se aproxima da sua prometida aposentadoria, Tarantino começa a sentir a tentação do relato testamental, de legar o Grande Filme sobre sua visão de mundo e sobre seu país. O perigo da grandiloquência é o único que de fato ameaça seu oitavo longa.

No fim, talvez esse filme-resumo nunca venha, pela própria natureza cinefílica do diretor, cultor de gêneros acima de tudo. De qualquer forma, Os 8 Odiados não é esse Grande Filme, mas, dentro daquele que talvez seja o banho de sangue mais desregrado na obra do diretor, ao som de Morricone, há tanto um tom de lamento quanto um de consumação.

Nota do Crítico
Ótimo