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Oldboy - Dias de Vingança | Crítica

Problemas de gente branca

Marcelo Hessel
04.06.2014, às 18H16
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H43
ATUALIZADA EM 29.06.2018, ÀS 02H43

Dos seus filmes de conflito racial mais autorais, desde Faça a Coisa Certa até o recente Verão em Red Hook, aos suspenses de encomenda, como O Plano Perfeito, Spike Lee sempre conseguiu achar uma urbanidade particular: seus filmes se passam num lugar específico numa época específica. É isso que dá a eles sua atualidade e mesmo seu propósito, porque nesses lugares e tempos reconhecíveis há também conflitos específicos.

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O que chama atenção no seu Oldboy - Dias de Vingança é a ausência dessa especificidade. Embora uma cartela e o noticiário da TV situem o espectador no tempo - o publicitário alcoólatra Joe Doucett (Josh Brolin) é preso num quarto em 1993 e solto em 2013 - trata-se de um remake suspenso no ar. Lee filma em estúdios em Nova Orleans e situa a trama em cenários genéricos: um bar de poucos fregueses, uma fábrica abandonada, um motel, restaurantes chineses. Mesmo o plano de grua que nos localiza numa Chinatown pode ser na Chinatown de qualquer cidade dos EUA.

Oldboy abre com um plano geral numa avenida aleatória (um traveling no meio da rua até a porta do bar onde Joe está) e os planos que situam as cenas no motel se repetem em cortes rápidos, como se fossem fotografias de banco de imagem (a fachada, o carro, o letreiro do motel). É como se o cineasta estivesse desinteressado em encontrar, para seu filme, um lugar no mundo que não seja aquele dos clichês da América branca (o campo de futebol americano com seus atletas e suas cheerleaders, o bar para colarinhos azuis, a escola para privilegiados).

Quando realizou Bamboozled - outro filme suspenso no ar e deslocado no espaço, rodado em estúdios, carros e escritórios - Spike Lee se descolava da realidade para fazer uma sátira ao modo como os negros se enxergam nos EUA. Nesse sentido, seu Oldboy pode muito bem ser entendido como uma sátira ao mundo - e à visão de mundo - dos brancos mimados e auto-importantes. Não por acaso tanto Bamboozled quanto Oldboy envolvem filmes dentro do filme e projeções de uma realidade forjada.

Essa ideia de que estamos diante de uma versão "white people problems" do Oldboy sul-coreano de Park Chan-wook parece ideal para entender o que Spike Lee pretende aqui. As tragédias de seus protagonistas brancos são encenadas como desvario (as atuações exageradas de Brolin e Sharlto Copley, a câmera que cola em primeira pessoa no bêbado Joe), seus arcos de redenção são ironizados (o herói aprende a ser herói com vídeos de ginástica!) e ao negro cabe as funções de mover o sistema (o "hotel" de Samuel L. Jackson tem dezenas de hóspedes, elemento distinto do filme original).

E não pode haver lugar mais emblemático desse desvario, dessa piada, do que a mansão em Luxemburgo - país que é o não-lugar por excelência - onde se encena uma chacina. Nessa e em outras cenas, Lee parece usar o plano-sequência e a violência como uma válvula de escape pessoal, mas o que ele diz com Oldboy é mais elaborado do que um simples reflexo: esses lugares onde se passam as tragédias dos protagonistas parecem irreais como um cenário de papelão porque os Problemas de Gente Branca são também, na visão do cineasta, uma obra de fantasia.

Leia aqui a nossa crítica do Oldboy original.

Oldboy - Dias de Vingança | Cinemas e horários

Oldboy - Dias de Vingança
Oldboy
Oldboy - Dias de Vingança
Oldboy

Ano: 2013

País: EUA

Classificação: 12 anos

Duração: 104 min

Direção: Spike Lee

Elenco: Josh Brolin, Elizabeth Olsen, Samuel L. Jackson, Sharlto Copley, Lance Reddick, Michael Imperioli, Max Casella, Richard Portnow, Ilfenesh Hadera, Grey Damon, Rami Malek, James Ransone, Linda Emond, Hannah Simone

Nota do Crítico
Bom

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