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Okja | Crítica

Bong Joon-ho vai de Disney a Ghibli e une o mundo em torno de sua fábula satírica

Marcelo Hessel
28.06.2017
18h08
Atualizada em
04.07.2017
15h34
Atualizada em 04.07.2017 às 15h34

Okja é o passo definitivo do cineasta sul-coreano Bong Joon-ho na direção de um cinema multinacional que atende os chamados quatro quadrantes do público: mulheres e homens, adultos e crianças. O fato de ser um filme produzido para streaming pela Netflix - embora Bong mostre na tela que Okja tem escopo e vocação para a tela grande - só confirma essa intenção de chegar a um público mais amplo possível.

Bong basicamente une Ocidente e Oriente ao referenciar Disney (o porco gigante geneticamente modificado tem as orelhas grandes e os olhos pequenos de Dumbo, e passa por altos e baixos emocionais que também evocam a animação clássica) e Hayao Miyazaki (em entrevistas a atriz Tilda Swinton conta que ela e Bong são fãs de Totoro, e mesmo as irmãs gêmeas que ela interpreta no filme são como uma releitura das irmãs de A Viagem de Chihiro), unidos por sua matriz fabular. Seu filme parte de uma premissa simples que não parece envenhecer: uma criança e seu bicho de estimação têm entre si a relação mais pura que pode haver num mundo onde deixar a infância significa perder a inocência. "Tirando ela e Okja todos os outros personagens são estúpidos", brinca Bong.

O que torna Okja interessante dentro da cinematografia do coreano é que, mesmo em busca desse discurso universalizante, Bong não lima as arestas que fazem seu cinema tão particular, principalmente em relação à variação de tons e gêneros. A modulação arriscada entre o humor e a violência - cujo ápice ele atingiu cedo na carreira, já em Memórias de um Assassino - volta em Okja sem se diluir demais. Nessa oscilação entre a caricatura e a gravidade (quando os ecoterroristas de Okja apanham da polícia, por exemplo, a câmera lenta tem ao mesmo tempo um efeito lúdico e agravante), ele encontra um meio termo que aos poucos se expande, e é por onde sua visão de mundo transita.

Assim como em O Expresso do Amanhã, o filme anterior de Bong e o primeiro falado em inglês, esse meio termo inequivocamente toma a forma da sátira. A sátira é o meio de expressão mais caro a Bong, para dar conta de todos os absurdos que ele vê na relação entre capitalismo e geopolítica hoje, embora o discurso ambientalista-anarquista de Okja já pudesse ser sentido há anos desde O Hospedeiro, o blockbuster de monstro sul-coreano que colocou Bong em evidência mundial.

Em certo momento de Okja, o líder dos anarquistas vivido por Paul Dano, num acesso de fúria, diz aos seus companheiros globalizados que "tradução é sagrado", e ao combinar uma variedade de registros e discursos fica claro que Bong Joon-ho está atrás de um esperanto próprio, um idioma capaz de resumir o desmanche e a fluidez de valores que presenciamos no mundo, capaz de capturar tanto a caricatura mais grotesca do homem quanto o gesto mais discreto de empatia.

Nota do Crítico
Ótimo