Dan Stulbach e César Trancoso em O Vendedor de Sonhos

Créditos da imagem: Warner Bros Brasil

Filmes

Crítica

O Vendedor de Sonhos

Cheio de frases de efeito, obra de Augusto Cury ganha adaptação que não escapa do viés de auto-ajuda, mas inspira por isso mesmo

Julia Sabbaga
18.05.2020
17h27
Atualizada em
20.05.2020
18h04
Atualizada em 20.05.2020 às 18h04

Apesar do diretor Jayme Monjardim querer escapar do rótulo de auto-ajuda na sua adaptação de O Vendedor de Sonhos, longa baseado no livro de Augusto Cury disponível na Netflix, não há realmente uma tentativa de fugir do tradicional em sua produção. Na realidade, seria até estranho tentar se afastar do melhor que essa obra tem a oferecer: personagens que servem como exemplos universais e lições que ressoam no coração de quem estiver aberto para um pouco do piegas. Recheado de frases de efeito e com mensagens apropriadas, O Vendedor de Sonhos pode não vencer por originalidade, mas acerta quando mira no coração. 

Liderada por Dan Stulbach e César Troncoso, a adaptação segue o caminho sem riscos de um drama cheio de emoções e, como um bom livro de auto-ajuda deve fazer, te deixa com citações para lembrar por dias e dias. A história segue os passos de Júlio César (Stulbach), um psicólogo que tenta suicídio e é auxiliado por um sujeito misterioso chamado pelo apelido de Mestre (Troncoso). Acompanhado pelo seu novo líder e buscando entender um sentido na sua vida, Júlio César questiona suas escolhas enquanto o filme explora tanto o passado tanto dele, quanto de seu profeta. No caminho, o longa revê lições de compaixão e significado da vida enquanto questiona as prioridades distorcidas da nossa sociedade e estrutura social. 

Passeando por uma fotografia bela e fazendo um tour admirável pela cidade de São Paulo, o filme faz o espectador se colocar no papel de Júlio César, seguindo os passos de um homem que tem sabedoria para dar e vender. Criando uma aventura mística que angaria personagens diferentes ao longo do caminho, O Vendedor de Sonhos constrói uma que passa de cena em cena criando contextos para as pílulas de sabedoria do Mestre: "O ser humano não morre quando o coração para de bater, morre quando, de alguma forma, deixa de se sentir importante", ele diz, em certa cena. 

O problema de acumular situações e percorrer diferentes cenários para que o Mestre faça seus discursos é que O Vendedor de Sonhos cai na armadilha de muitas adaptações que buscam encaixar todo o conteúdo de um livro nas telas; lhe falta fluidez. Mesmo com o sentimento de querer se deixar levar pelo filme, é difícil não questionar o crescimento de seguidores do Mestre ou a problemática familiar de Júlio César que, quando revisita sua esposa, é expulso de casa de modo abrupto. Enquanto o livro pode fornecer respostas para momentos como estes, o filme não soube enquadrar tudo que é preciso, tornando a jornada dos protagonistas um pouco travada. 

Por outro lado, Monjardim demonstra a habilidade de encaixar e desenvolver sentimentos, como em uma cena específica, no meio da jornada, que mostra que Júlio não foi salvo ao ser retirado do andaime da janela. Quando os personagens admiram a cidade, Júlio César levanta e revê a vista de 21 andares para baixo, mesmo estando distante daquele cenário, o diretor busca explicar que a jornada continua, e não é porque fomos retirados do parapeito que estamos salvos de nós mesmos. É uma cena certeira, e essencial, em que O Vendedor de Sonhos transmite a complexidade humana, que não é tão simples quanto os discursos do Mestre fazem parecer. 

Existe um fator que fez com que O Milagre na Cela 7, filme turco que chegou à Netflix recentemente, tenha explodido de público. Estamos todos, no meio de uma pandemia, com sentimentos à flor da pele, e abertos para reflexões humanas, principalmente as mais acessíveis. Neste contexto, O Vendedor de Sonhos vem como um apoio na jornada, até porque lições sobre a importância da vida e busca da felicidade são sempre importantes de receber, independente do mensageiro.

Nota do Crítico
Bom