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Crítica

O Último Batedor de Carteiras eterniza John Turturro como um dos grandes

Bom filme sobre conflito de gerações é a magnum opus de um ator brilhante

Omelete
3 min de leitura
23.10.2026, às 09H00.
John Turturro em O Último Batedor de Carteiras (Reprodução)

Créditos da imagem: John Turturro em O Último Batedor de Carteiras (Reprodução)

Uma das várias cenas inesquecíveis de O Último Batedor de Carteiras consiste inteiramente de John Turturro dançando jazz dentro do seu quarto. 

Movendo-se com fluidez ao redor de Rosie (Karina Arroyave), sua esposa acamada, o batedor de carteiras Harry nos dá um flash do charme descontraído que pode ter conquistado a moça anos atrás — não é só o fato de que ele é um pé-de-valsa (embora certamente seja!), mas a atenção que ele dedica a sua parceira de dança imobilizada, a forma como os movimentos derretem a tensão do dia, a mistura de afeto e cansaço que o fazem tão vividamente presente naquele quarto. Muito fácil entender Rosie: ali, naquela cena, é impossível não se apaixonar por Harry também.

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E ainda bem, porque O Último Batedor de Carteiras depende quase inteiramente desse enamoramento do público pelo personagem. Na entrada do segundo ato do filme, a rotina de crimes pequenos de Harry é desestabilizada quando ele rouba do herdeiro (Will Price) de uma família poderosa. Quando o rapaz o encontra, toma Rosie de refém e exige que Harry devolva um item em específico, lançando-o em uma jornada desesperada por um mundo de falcatruas muito mal escondido sob a superfície de Nova York.

O Último Batedor de Carteiras não é Joias Brutas, importante notar. Sai de cena o estilo eufórico e caótico dos irmãos Safdie, e entra um condutor (o diretor e roteirista Noah Segan, em seu segundo longa-metragem) mais contemplativo, que se sintoniza ao ritmo sincopado de seu herói veterano. Há urgência na missão de Harry, e a trilha jazzística de Gary Lionelli (O.J.: Made in America) é composta com ouvido atento para a levada inclemente da metrópole em que a história se passa, mas O Último Batedor de Carteiras é sobre as pessoas que fazem Nova York se dobrar a elas, e não o contrário.

Esse estilo plácido também se presta bem às revelações — algumas doces, outras dolorosas — que o filme aos poucos vai fazendo sobre Harry, a vida que ele viveu, e o quanto o tempo o ultrapassou. O texto de Segan pode até ser fascinado pelo seu protagonista, mas não lhe dá passe livre, salpicando o filme de figuras (vividas por gente como Steve Buscemi, Tatiana Maslany e Giancarlo Esposito, capazes de deixar impressões fortes mesmo em uma ou duas breves ceninhas) que explicitam os lados nobres e feios da geração à qual Harry pertence. 

O Último Batedor de Carteiras é provavelmente– perdoem o trocadilho – um dos últimos filmes que veremos sobre essa estirpe de homem, nascido lá na metade do século passado, cuja incapacidade de se comunicar e treinamento impecável nas poses mais cool da masculinidade clássica escondem uma lealdade seletiva, um orgulho destrutivo, e uma bagatela de arrependimentos. E isso tudo está estampado em cada expressão, cada movimento (inclusive os de dança) de Turturro, que se eterniza aqui como uma presença indelével na tela, talvez um dos grandes atores já filmados.

Este é um filme dele e para ele, em muitos sentidos. É através dele que O Último Batedor de Carteiras consegue dizer tudo o que tem para dizer sobre a cidade em que se passa, as pessoas que a povoam, e a sucessão de vidas e mortes (e de volta outra vez) que se encadeiam ali, assim como se encadeiam em todo lugar.

*O Último Batedor de Carteiras foi exibido na 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Ainda não há previsão de estreia para o circuito comercial brasileiro.

Nota do Crítico

O Último Batedor de Carteiras

The Only Living Pickpocket in New York

Duração: 88 min
Direção: Noah Segan
Roteiro: Noah Segan
Elenco: Giancarlo Esposito, Steve Buscemi, John Turturro, Tatiana Maslany
Onde assistir:

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