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Crítica

O Som ao Redor | Crítica

O volume opressor da história

Marcelo Hessel
04.01.2013
01h23
Atualizada em
21.09.2014
14h51
Atualizada em 21.09.2014 às 14h51

Assim como Os Donos da Noite, que parte de fotos reais em preto e branco para situar, dentro desse recorte da realidade nos anos 1980, a sua narrativa de ficção, O Som ao Redor também começa com uma seleção de imagens p&b. No caso do filme do Kleber Mendonça Filho, porém, são fotografias mais antigas, de fazendas dos tempos dos senhores de escravos.

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Não é apenas uma contextualização, portanto, que o diretor pernambucano está procurando estabelecer neste seu primeiro longa-metragem de ficção, mas uma relação histórica. Os latifúndios nunca saíram de moda no Brasil, afinal, e O Som ao Redor tenta mostrar que, no século 21, a exploração do trabalho e a obsessão com a posse só ganham novas expressões.

A trama se ambienta na vizinhança onde Mendonça mora no Recife, em meio aos edifícios altos de Boa Viagem. São três ou quatro ruas que a família do senhor Francisco (W.J. Solha) domina. Quando chega por lá, porém, uma equipe de vigilância propondo aos vizinhos um serviço de segurança 24 horas (que todos contratam na hora), a influência e o poder de Francisco se enfraquecem. Com os vigias alertas, enfim, todos podem ter seu próprio latifúndio em paz.

A chegada dos vigias é o pretexto para Mendonça fazer em O Som ao Redor um panorama da convivência problemática que temos hoje com os espaços públicos e privados nas grandes cidades, situação de hostilidade que passa pelas relações domésticas de trabalho. O mal estar que zumbe ao longo do filme, presente na trilha do DJ Dolores e na edição de som que ressalta os barulhos do dia a dia (motores de elevadores, cães, música alta), é semelhante ao mal estar de Trabalhar Cansa, que escolhe lidar com a classe média e com as relações de trabalho em chave surrealista.

Já a chave de O Som ao Redor é hiperrealista. Além dos efeitos de som, que trazem para dentro de casa todos os barulhos da rua que grades na janela não conseguem conter, os close-ups dos câmeras Pedro Sotero e Fabricio Tadeu são bastante arrojados, e alguns zoom-ins são tão longos que chegam a deformar a imagem (como no plano noturno do vigia recém-chegado). Embora utilize a janela mais horizontalizada do Cinemascope para achatar o teto e ampliar os espaços laterais dos apartamentos, é nesses close-ups que a claustrofobia de O Som ao Redor se dá de forma mais angustiante.

Filmar uma "coisa normal com um tratamento não tão normal" é uma explicação prosaica que Mendonça dá para falar do seu longa. Embora cite como influência o cinema opressivo de John Carpenter (para o brasileiro, Carpenter é sempre "uma presença"), talvez O Som ao Redor tenha mais em comum com outro cineasta que Mendonça, enquanto crítico de cinema, costuma elogiar em seus textos: o palestino Elia Suleiman. A ideia de encenar a rotina como uma panela de pressão (metáfora que Suleiman inclusive usa literalmente) e associar, por sugestão, o mal estar do dia a dia com um contexto histórico (no caso do palestino, o conflito com Israel) é aproveitada aqui por Mendonça com máximo efeito. A cena da bola de futebol que cai no vizinho em O Som ao Redor parece saída direto de Intervenção Divina de Suleiman.

A estrutura de roteiro do palestino, em forma de vinhetas, que à primeira vista não têm relação umas com as outras, mas formam um painel crescente de pequenos desconfortos, rendem em O Som ao Redor momentos de percepção fina (as estrelas coladas no teto do quarto que sumiram debaixo de uma mão de tinta), de fantasmagoria (o aspirador de pó que a mulher usa para fumar cigarro parece que lhe suga a alma) e de puro terror carpentiano (a luz do sensor do alarme domiciliar é o símbolo perfeito do estado de emergência em que vivemos).

Como bom crítico, Kléber Mendonça Filho sabe colher as melhores influências para seu trabalho, e depois de quatro curtas premiados em festivais, ele agora pode, a partir da consagração internacional de O Som ao Redor, fazer do seu estilo uma assinatura própria.

O Som ao Redor | Trailer

O Som ao Redor | Cinemas e horários

O Som ao Redor
O Som ao Redor
O Som ao Redor
O Som ao Redor

Ano: 2012

País: Brasil

Classificação: 16 anos

Duração: 131 min

Direção: Kleber Mendonça Filho

Elenco: Irma Brown, Sebastião Formiga, Gustavo Jahn, Maeve Jinkings, Irandhir Santos, W.J. Solha, Lula Terra, Yuri Holanda, Clébia Souza, Albert Tenorio, Nivaldo Nascimento, Felipe Bandeira, Clara Pinheiro de Oliveira, Mauriceia Conceição

Nota do Crítico
Ótimo

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