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O Roubo da Taça | Crítica

Chanchada vai na contramão dos novos ricos e resgata nossa tragicomédia

Marcelo Hessel
06.09.2016, às 17H08

Se havia alguma coisa nos documentários do diretor Caíto Ortiz, Motoboys - Vida Loca (2003) e O Dia em que o Brasil Esteve Aqui (2005), que sugerissem como se desenharia seu cinema de ficção, era o olhar treinado para identificar como a mistura de melancolia e festa faz parte da identidade do brasileiro. Esse elemento é central ao novo filme de Ortiz, O Roubo da Taça.

À primeira vista estamos diante de mais uma "moneychanchada" - termo preciso, cunhado pela crítica Andrea Ormond, para definir as comédias sobre alpinismo social que fazem do dinheiro seu principal MacGuffin para levar às telas o Brasil da ascensão do subúrbio à classe média nos anos do lulismo. O Roubo da Taça, porém, já se diferencia pela trama histórica com base em fatos, com sua versão ficcionalizada do roubo da taça Jules Rimet no Rio de Janeiro em 1983.

Que síntese do nosso viralatismo: conseguimos em definitivo a cobiçada taça depois de ganhar três vezes a Copa do Mundo de futebol, mas a CBF não soube guardá-la, e depois de roubada a taça real terminou negociada com um ourives argentino, que a derreteu. Festa e melancolia. Ortiz aproveita a premissa e a ambientação para tratar do Brasil dos anos que antecederam a Redemocratização, e seu filme traduz bem o clima bipolar dessa época marcada por inflação e desilusão mas também pelo respiro do afrouxamento dos anos de chumbo.

Não por acaso, os protagonistas Peralta (Paulo Tiefenthaler) e sua namorada Dolores (Taís Araujo) parecem saídos de uma pornochanchada de 1983, o que dá ainda mais ao filme uma cara de registro de época. Tiefenthaler faz o tipo malandro que, mesmo diante da sua mulher vestida com sua melhor lingerie, escolhe sair para jogar, enquanto Taís Araújo não se intimida a exibir seu corpo num papel que lhe impõe, ao mesmo tempo, uma notada fragilidade (Dolores passa mais tempo vacilante diante do espelho, insegura com seu cabelo, do que em jogos de sedução). São personagem que parecem inconcebíveis nas comédia de novorriquismo dos dias de hoje, porque surgem para nós mais como figuras românticas trágicas, daquelas que povoam o samba, do que como símbolos de uma mobilidade social.

Como nas melhores pornochanchadas, que lidavam com as mazelas do país de forma enganosa, driblando a censura com seu clima de displicência, O Roubo da Taça explora a persona cômica de Tiefenthaler mas faz um filme agudo sobre nossas dores - seja na fotografia escura das bibocas cariocas, aprofundando a perdição, na representação forte de cenas de violência (o ataque ao vigia, a mulher limpando a orelha do namorado), seja na sensibilidade para reconhecer nossos tiques e anseios (o cuidado com que Dolores separa uma calcinha amarela para atrair dinheiro no Ano Novo).

Esses momentos mostram que, ainda que obedeça às expectativas das comédias de tipos e de erros - as viradas conseguem se manter até o final, e o prêmio de melhor roteiro atribuído no Festival de Gramado não é injustificado -, Ortiz está preocupado em dar ao seu filme uma particularidade que o distingue. Seu olhar para nossas superstições, nosso imediatismo e especialmente para nossa tendência ao revanchismo é bastante certeiro: tudo isso se reúne às vésperas do Réveillon, época de renovar esperanças mas também de cobrar faturas, e Ortiz consegue botar nos rostos de cada um dos seus atores, de Milhem Cortaz a Thelmo Fernandes, uma síntese desses sentimentos. O Brasil de O Roubo da Taça não é o país do jeitinho, e sim da sobrevivência.

O Roubo da Taça
O Roubo da Taça

Ano: 2016

País: Brasil

Classificação: 12 anos

Duração: 102 min

Direção: Caíto Ortiz

Roteiro: Caíto Ortiz, Lusa Silvestre

Elenco: Paulo Tiefenthaler, Tais Araujo

Nota do Crítico
Ótimo

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