O Retorno de Ben

Créditos da imagem: O Retorno de Ben/Diamond Films/Reprodução

Filmes

Crítica

O Retorno de Ben

Filme discute tema bastante atual em um retrato honesto e agridoce dos impactos da dependência química em uma família

Mariana Canhisares
22.03.2019
19h57

O desejo de redenção de um filho, lutando contra a dependência química, e a impotência de uma mãe, disposta a fazer de tudo para salvá-lo, são o cerne de O Retorno de Ben. Em uma narrativa predominantemente agridoce, o filme apresenta o jovem personagem-título (Lucas Hedges) que, recém-saído da reabilitação, busca uma segunda chance para tentar voltar à sua família e, em última instância, ao que foi um dia. Enquanto sua chegada é motivo de alegria para sua amável mãe Holly (Julia Roberts), causa também uma profunda preocupação. Juntos, eles tentarão superar as dificuldades desse processo, por mais complicado que seja encarar seus erros.

Para abordar um drama infelizmente bastante conhecido do público, o diretor e roteirista Peter Hedges toma um caminho pouco óbvio. Em vez de explicar como Ben abalou a estrutura daquele lar com um flashback ou um mero diálogo, ele cria um pretexto para que mãe e filho revisitem o passado do jovem e encarem nos olhos dos outros a gravidade e os efeitos da dependência química - seja esbarrando em um antigo colega de escola também enfrentando o vício, seja encontrando uma mulher que perdeu a filha por overdose. Assim, há uma tensão constante, como se a qualquer momento algo pudesse dar errado. Mas, de modo semelhante a Holly, o espectador se vê tendo esperanças de que tudo acabará bem, mesmo que seu instinto lhe diga o contrário.

A razão para que o filme seja bem-sucedido nesse quesito e, portanto, gere essa reação no público está na direção e nas performances da dupla de protagonistas. Enquanto Julia Roberts manifesta abertamente as emoções da sua personagem, indo de um otimismo e fé inocentes para uma desconfiança e um medo inquietante, Lucas Hedges é na maior parte do tempo contido. Mesmo que não se restrinja apenas a esta aparente apatia, a decisão de ser menos explícito prova-se pertinente para manifestar a familiaridade do jovem com os perigos do tráfico de drogas, além do arrependimento de envolver seus parentes nessa situação.

Deste contraste nasce uma dinâmica interessante, que completa a proposta do roteiro e facilita a identificação do público. Porém, quando mãe e filho se separam, percebe-se que o filme perde um pouco do seu impacto. O grande diferencial de O Retorno de Ben está justamente em acompanhar a mãe conforme ela monta o quebra-cabeças e compreende as situações delicadas em que seu filho se meteu, assim como no desconforto de Ben de revelá-las. Ao separá-los, Peter Hedges acaba aproximando o longa de outras produções com temática semelhante, em vez de efetivamente dar o peso devido ao seu final. Em outras palavras, cria-se uma espécie de fissura no que fora, até então, uma narrativa linear redondinha.

De todo modo, não se pode negar que, além da sensibilidade, há o reconhecimento da responsabilidade que é retratar uma realidade tão delicada como essa. Afinal, o longa leva para as telas não apenas o drama de Ben e sua família, mas a de muitos espectadores. A cautela é positiva, já que por meio dela o cineasta levanta questionamentos mais adequados do que simplesmente estimular o comportamento raso de apontar o dedo e culpar um ou outro. Mas, mesmo com boas atuações, o cuidado não basta para garantir um filme acima da média.

Nota do Crítico
Bom