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Crítica

O Resgate do Soldado Ryan | Crítica

O resgate do soldado Ryan

Marcelo Forlani
01.06.2004
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h16
Atualizada em 21.09.2014 às 13h16

Quando entrou em cartaz nos Estados Unidos, em julho de 1998, O resgate do soldado Ryan (Saving Private Ryan), causou grande comoção pelos seus 20 minutos iniciais, tidos como os mais violentos da história do cinema. Sem dúvida, há mais sangue ali do que se costuma ver nos blockbusters comumente lançados nesta época do ano, o verão deles. Mas há de se convir também que aquela seqüência inicial representa apenas uma parte do que realmente aconteceu no dia 6 de junho de 1944, o Dia D.

A Operação Overlord liberou o norte da França da ocupação nazista dividindo-se em cinco áreas: Omaha e Utah para as tropas americanas e Gold, Juno e Sword para os britânicos e canadenses. Nas primeiras horas daquele dia, enquanto ainda estava escuro, centenas de pára-quedistas foram lançados em territórios franceses, para minar as forças alemãs e facilitar o ataque que viria do mar. É claro que nem tudo saiu como planejado e muita gente morreu sem nem mesmo ter dado um tiro contra o exército de Hitler.

E foi na praia de Omaha que a infantaria liderada pelo fictício Capitão John Miller (Tom Hanks) desembarcou e foi massacrada pelos nazistas. O próprio Spielberg confessou que seu intuito não era o de glamourizar o que tinha acontecido, mas sim mostrar da forma mais fiel possível como foi o início da invasão. E, realmente, é impossível ser mais didático do que aquilo. Logo que os primeiros centímetros da frente das embarcações começa a se abrir, os tiros começam a voar na direção dos americanos. Para muitos, aquela era a primeira missão e eles não conseguiram sequer molhar os pés no mar francês.

Nesta batalha inicial filmada pelo diretor de E.T., há cenas que fizeram muita gente no cinema fechar os olhos, ou até sair da sala. Ainda na água, soldados morriam afogados tentando se livrar de todo o pesado equipamento que carregavam. Outros, eram atingidos por balas. Na terra, a coisa não estava melhor. Os alemães descarregavam sua artilharia sem piedade de dentro dos bankers (pequenas fortificações). Explosões faziam voar pedaços de americanos para todos os lados. Uma das cenas que mais marcou foi a do soldado procurando seu braço, ou então aquela em que outro leva um tiro na cabeça enquanto verificava o capacete que tinha salvado sua vida segundos antes. Ironias sem graça que só uma guerra pode produzir.

Padrão de qualidade

As cenas aquáticas e as explosões são excelentes do ponto de vista técnico. Além do efeito visual, demonstram a qualidade de som utilizado. Dentro do mar, há um silêncio quase confortante no meio de todo aquele mar vermelho. De um destes estouros vem uma das visões mais estarrecedoras e comuns daquele momento. Capitão Miller não consegue ouvir um de seus subalternos chamando-o. Está perdido, sem saber o que fazer, ou para onde ir... e ele é um dos líderes de campo. Ninguém estava preparado para aquilo. Tom Hanks demonstra nesta cena como é um excelente ator, enquanto Spielberg muda mais uma vez a história do cinema.

Para refazer esta seqüência, foram chamados 750 extras - muitos deles haviam participado da filmagem de Coração Valente (Braveheart, de Mel Gibson - 1995). Como não existe uma grande quantidade de uniformes intactos da Segunda Guerra, foram costurados 3 mil conjuntos idênticos aos utilizados na época, além de 2 mil botas. As 2 mil armas levaram cerca de três meses para ficarem prontas e muitos dos veículos anfíbios que se vê em cena tiveram que vir dos Estados Unidos, pois os que estavam na Europa também não tinham condições de uso.

Morre na praia

Passados os 20 minutos da chegada no continente europeu começa a narrativa que dá título ao filme. A missão de resgate ao tal soldado Ryan tem início assim que o alto comando do exército americano fica sabendo que três dos quatro irmãos Ryan morreram durante a invasão. O paradeiro do quarto, o pára-quedista James Ryan, é incerto e cabe ao Capitão Miller e alguns de seus homens descobrir onde ele está e fazê-lo voltar para os Estados Unidos.

O argumento escrito pelo roteirista Robert Rodat mistura ficção e realidade. De fato houve algumas famílias que perderam todos seus homens na guerra. O caso mais conhecido é dos irmãos Sullivan: os cinco morreram em 1942, num ataque ao navio Juneau, no Oceano Pacífico. A partir deste momento, a política do exército americano desaconselha que irmãos sirvam juntos, mas nunca se soube de um caso em que um pelotão fosse destacado para procurar um soldado nestas condições mostradas no filme.

Inconformados com a ordem de procurar uma agulha (Ryan) no palheiro (a guerra), os soldados liderados por Miller ficam se questionando porque este soldado vale o esforço de oito homens. Além do comandante, o grupo é formado pelo sargento Horvath (Tom Sizemore), os soldados Reiben (Edward Burns - em ótima forma), Mellish (Adam goldberg - o judeu inconformado), Jackson (Barry Pepper - o sniper), Caparzo (Vin Diesel em seu primeiro papel importante), o enfermeiro Wade (Giovani Ribisi - sensível) e o tradutor Upham (Jeremy Davies - o deslocado). E no final da história o próprio Ryan (Matt Damon) recebe a ordem: "faça valer a pena!"

Mas a verdade, é que o que vale mesmo a pena em O resgate do soldado Ryan são seus 20 minutos iniciais. As batalhas e todos os questionamentos morais e pessoais que vêm depois foram melhor desenvolvidos em outro produto da grife Spielberg: a misssérie Band of Brothers, produzida em conjunto com Hanks para o canal de TV HBO. Assim, o filme morre na praia... uma morte honrosa.

O Resgate do Soldado Ryan
Saving Private Ryan
O Resgate do Soldado Ryan
Saving Private Ryan

Ano: 1998

País: EUA

Classificação: 16 anos

Duração: 170 min

Direção: Steven Spielberg

Elenco: Tom Hanks, Tom Sizemore, Dennis Farina, Max Martini, Joerg Stadler, Harve Presnell, Matt Damon, Edward Burns, Barry Pepper, Vin Diesel, Adam Goldberg, Giovanni Ribisi, Jeremy Davies, Ted Danson, Paul Giamatti, Dylan Bruno, Daniel Cerqueira, Demetri Goritsas, Ian Porter, Gary Sefton, Julian Spencer, Kathleen Byron, Nathan Fillion, Bryan Cranston

Nota do Crítico
Bom

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