Filmes

Crítica

O Rei do Show | Crítica

Cheio de números musicais impressionantes, filme transforma vida real em conto de fadas

Rafael Gonzaga
25.12.2017
18h00
Atualizada em
08.01.2018
12h13
Atualizada em 08.01.2018 às 12h13

Hugh Jackman está de volta ao centro de uma superprodução musical em O Rei do Show. O filme, dirigido pelo novato Michael Gracey, se propõe a contar a história de P.T. Barnum, papel de Jackman, um homem que praticamente inventou um modelo de investimento em entretenimento e criou o circo da forma como as pessoas o conhecem hoje em dia. Ambientado no século XIX, o filme mostra sua trajetória desde a infância pobre até o sucesso como empreendedor sob uma ótica extremamente romantizada. A impressão que fica do começo ao fim do longa é de que, ao invés de uma cinebiografia, o espectador está vendo um conto de fadas - e isso não é um ponto negativo. Com ótimos números musicais e um elenco pontuado por nomes carismáticos como Zendaya e Zack Efron, é impossível não se deixar envolver pela atmosfera açucarada e utópica do longa.

Vale pontuar que o filme foge do modelo mais tradicional de contar histórias, onde o personagem tem um desafio específico e o longa se desenrola mostrando esse protagonista lutando para superá-lo. Ao contrário, O Rei do Show mostra Barnum superando várias adversidades ao longo da vida - até mesmo em seu relacionamento com Charity (Michelle Williams) há o obstáculo inicial da diferença de classes sociais dificultando a união deles e, com o tempo, aparece outro grande problema, personificado na cantora Jenny Lind (Rebecca Ferguson). Isso confere algo de superficialidade para a história como um todo - o filme não se aprofunda muito em nada e, quando menos o espectador espera, já está em outra fase do protagonista.

Essa superficialidade deixa de ser um problema quando se entende que a proposta do filme, mais do que contar a história do primeiro show bussinessman, é pegar uma história da vida real e transformá-la no mais perfeito conto de fadas. O que salva o filme de um vazio motivacional é o pano de fundo presente o tempo todo: a luta contra o preconceito. Enquanto acompanha a trajetória profissional de um homem que revolucionou o entretenimento em seu tempo, o filme se ocupa de falar integralmente sobre aceitação, faz com que o espectador crie empatia com os artistas contratados por Barnum (destaque para Keala Settle) e passa uma lição com ingenuidade suficiente para atingir pessoas de todas as idades - o filme é eficiente ao falar na necessidade de respeitar quem nos é diferente.

Uma das melhores coisas do filme está na química entre Hugh Jackman e Zack Efron, evidente durante a cena musical embalada por "The Other Side". Os dois são ótimos em cantar, dançar e atuar ao mesmo tempo e a sincronia deles nesses momentos é espetacular. Mas o êxito dessa relação não se restringe a momentos musicais: a forma como a trama desenvolve a parceria entre os dois personagens consegue ser mais complexa e interessante que as de seus respectivos arcos românticos. Isso, é claro, não quer dizer que o relacionamento dos personagens de Efron e Zendaya ou de Jackman e Williams sejam conduzidos por um enredo ruim, só que são pouco surpreendentes pela obviedade de suas conclusões.

A trilha sonora do filme é muito bem construída e isso se deve a nomes fortes por trás dela. Quem assina a composição das faixas é o duo Benj Pasek e Justin Paul, dupla por trás das músicas de vários filmes e, mais recentemente, consagrados com o Oscar de Melhor Canção Original por La La Land. A trilha de O Rei do Show sustenta uma atmosfera de grandiosidade e empolgação necessária para o filme fazer sentido dentro de sua proposta - destaque para "The Greatest Show" e "A Million Dreams" pela sua função na trama e para "Never Enough" e "This is Me" por serem canções bonitas dessas que o espectador sai cantando do cinema.

Há algo de metalinguístico em fazer um filme sobre entretenimento sem maiores discussões dentro desse mesmo formato. O Rei do Show não problematiza comportamentos que nitidamente receberam um filtro cor de rosa, nem confere camadas de complexidade aos seus personagens para torná-los mais humanos e menos ficcionais. Ainda que esteja debutando como diretor de um grande longa, Michael Gracey acumula trabalhos em publicidade que deram a bagagem necessária para colocar essa história nos filtros mais consumíveis possíveis. Há uma vasta oferta de temas para agradar todo o público - romances proibidos, personagens oprimidos por uma sociedade excludente, a história de sucesso de um homem, além de amor, amizade, redenção. O Rei do Show não é um filme desses que fica para sempre na memória, mas conta bem sua história e sustenta sua mensagem de positividade e superação até o último segundo - o final é surpreendente e desarma de vez até a pessoa mais amargurada sentada no cinema.

Nota do Crítico
Bom