O Rei da Internet captura os excessos dos anos 2000 - e da natureza humana
Filme com João Guilherme acerta ao abordar seu subtexto com ótima misturinha pop
Créditos da imagem: João Guilherme em cena de O Rei da Internet (Reprodução)
Em certo ponto de O Rei da Internet, dois personagens centrais do filme decidem disputar um racha. Enquanto eles entram em seus carrões e aguardam a bandeira quadriculada – no caso, representada pela calcinha de uma garota que estava na mesma festa que eles –, o diretor Fabrício Bittar (Como Hackear Seu Chefe) usa e abusa das referências a Velozes e Furiosos. A tela dividida entre os dois motoristas, a montagem frenética de videoclipe, o som estourado dos motores roncando furiosamente… Rob Cohen (que assinou o longa original da franquia, em 2001) ficaria orgulhoso, digamos assim.
A referência não só é divertida para os fãs da saga automobilística, como também apropriada para a localização temporal dessa história. Ambientado entre 2004 e 2005, O Rei da Internet reedita (com bastante liberdade criativa e um narrador bem pouco confiável) a história real de Daniel Nascimento (vivido por João Guilherme), adolescente que foi peça-chave de um dos primeiros e maiores esquemas de fraude virtual da história do Brasil. E Bittar, que também assina o roteiro ao lado de seu colaborador frequente Vinícius Perez, se aproveita da trama para analisar os excessos e ingenuidades de todo um período.
Há de se dizer que O Rei da Internet é muito contundente nessa missão temática – e que ela, inclusive, o salva de ser mais uma cinebiografia que “enfileira” os fatos da vida do seu biografado sem se preocupar com subtexto. A seção inicial do filme, por exemplo, faz crônica da vida familiar de Daniel, mas serve principalmente para apresentar o embate ideológico entre a ambição dele e o conforto do pai, Roberto (Emílio de Melo), em uma vidinha respeitável, mas terminantemente normal. Ninguém os conhece, os admira ou os teme, mas ninguém tampouco os perturba… e acontece que Daniel, ao contrário do pai, não está satisfeito com isso.
O Rei da Internet posiciona essa inquietude como um mal dos tempos, pelo menos até a página dois. Bittar postula que, bombardeados com uma avalanche de mídia cuja chegada não era prevista quando eles nasceram, e cujos efeitos eram muito pouco compreendidos quando a receberam, os millennials como Daniel cresceram sobrecarregados por uma narrativa cultural que lhes dava só uma certeza absoluta: a de que suas vidas só valiam a pena se fossem notados. E a maneira mais fácil de ser notado? Oras, pelo luxo, pela extravagância, pela quantidade (de sexo, de drogas, de dinheiro).
Ter uma vidinha respeitável não era mais uma conquista respeitada por ninguém. Bom era acelerar um muscle car como Vin Diesel em Velozes e Furiosos, agarrar dançarinas seminuas na banheira do Gugu, viver a vida acelerada e descolada que passava nos clipes da MTV. Bittar, que inclusive trabalhou por anos na versão brasileira da emissora musical, coopta todas essas linguagens, deita e rola nelas, para tentar entender como uma vida de excessos seduziu Daniel lá nos anos 2000. O Rei da Internet usa a nostalgia como arma de convencimento: você também não ia querer tudo isso? Será que ainda não quer?
É que no fundo, é claro, esse mal dos millennials é nada mais do que o eco exacerbado de uma natureza humana que é atemporal. Daí que as referências Y2K do longa vêm acompanhadas de uma trilha sonora baseada em jazz/R&B antigo (“Heard it Through the Grapevine”, de Marvin Gaye, aparece ainda no primeiro ato). Internet ou não, a euforia que Daniel sente em sua trajetória meteórica no mundo do crime é a mesma que associamos ao sucesso há séculos. O longa argumenta, assim, que o mundo segue rodando do mesmo jeito que sempre rodou – só um pouquinho mais rápido do que estávamos acostumados.
Para O Rei da Internet, que tem sido vendido por aí como um híbrido de comédia e true crime com linguagem popular e até algum apelo adolescente, é um insight que pode surpreender muita gente. Venha para ver João Guilherme em seu primeiro grande papel adulto (sexo, drogas e rock n’ roll incluídos), mas fique para entender um pouco melhor o lugar – real e virtual, geográfico e temporal – dolorosamente confuso em que todos somos obrigados a viver.
O Rei da Internet
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