O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos

Créditos da imagem: Disney/Reprodução

Filmes

Crítica

O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos

Roteiro básico limita potencial da fantasia da Disney

Natália Bridi
01.11.2018
14h31
Atualizada em
02.11.2018
11h27
Atualizada em 02.11.2018 às 11h27

Uma sensação de encantamento intermitente percorre O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos. O filme da Disney, baseado no conto de E. T. A. Hoffmann e no balé musicado por Tchaikovsky, é uma fantasia de aura clássica. A magia dessa nova versão, porém, acaba limitada por um roteiro básico.

Não ajuda também que o longa, rodado originalmente por Lasse Hallström, passou por refilmagens pelas mãos de outro diretor. O crédito duplo do filme, divido entre Hallström e Joe Johnston, indica que as refilmagens foram significativas (segundo as regras do Sindicato dos Diretores de Hollywood, um diretor precisa rodar no mínimo 10% do filme para receber o crédito). A troca de visões esclarece, em parte, o descompasso que acompanha a história de Clara, uma jovem curiosa que acaba de perder a mãe.

Fica óbvio, ao menos para o público adulto, qual será a sequência de eventos que transformará o início lúgubre - a família que precisa continuar a viver apesar do luto - em uma narrativa de descoberta e auto-afirmação - a chegada aos Quatro Reinos e sua ajuda imprescindível ao local. Há também um excesso de explicações no roteiro de Ashleigh Powell, cuja redundância se torna cansativa. Sem mencionar o quão questionável o script torna a finada mãe da protagonista, que tendo três filhos deixa evidente a sua preferência por Clara - enquanto ela ganha a chave para os Quatro Reinos, sua irmã mais velha ganha um vestido e o mais novo alguns soldadinhos de brinquedo.

O apelo está mesmo no visual. A fotografia de Linus Sandgren, vencedor do Oscar por La La Land, somada ao design de produção de Guy Hendrix Dyas, indicado ao Oscar por A Origem e Passageiros, e aos figurinos criados por Jenny Beavan, vencedora do Oscar por Uma Janela para o Amor e Mad Max: Estrada da Fúria, dá a O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos uma aura clássica, como se tivesse sido feito na década de 50. Mesmo as paisagens construídas por computação gráfica relembram as matte painting usadas antigamente. A delicadeza da atuação de Mackenzie Foy como Clara amarra essa estrutura imagética, como se esse fosse de fato um balé narrativo.

O cuidado estético evidencia que o racional deve ficar em segundo plano. O fascínio interrompido pelo roteiro pouco inspirado, entretanto, torna a experiência incompleta. Personagens bem caracterizados como a Sugar Plum de Keira Knightley perdem a força conforme a trama avança, enquanto outros, como a Mother Ginger de Helen Mirren, permanecem perdidos do início ao fim. Mesmo o Quebra-Nozes do título, interpretado pelo inexperiente Jayden Fowora-Knight, custa a provar sua importância. É bem possível que o conceito inicial fosse dar uma artificialidade intencional aos personagens dos Quatro Reinos, mas os percalços da produção corromperam essa ideia. O resultado é que fica difícil se relacionar com qualquer personagem além de Clara.

Frente a um público mais inocente, sem maldade para observar os recursos óbvios do roteiro ou a incongruência de uma mãe que dá preferência para um filho (um realismo digno de terapia que precisa de mais complexidade narrativa para ser abordado em um filme para crianças), O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos é belo, agradável e pode ser até inspirador. Para o adulto amargo, contudo, é uma experiência mais complicada.

Nota do Crítico
Bom