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Crítica

O Processo | Crítica

Documentário refaz o impeachment em narrativa desesperançada com a política tradicional

Marcelo Hessel
16.05.2018
17h49
Atualizada em
17.05.2018
04h00
Atualizada em 17.05.2018 às 04h00

Em 2016 o impeachment de Dilma Rousseff era tão fato consumado que o próprio documentário O Processo já coleta imagens no Congresso e as organiza - durante a tramitação junto à Comissão que analisou o pedido e depois na votação em plenário - para comprovar diagnósticos construídos a priori. Como a alienação do PT, o isolamento da presidente e as manobras dos investigados pela Lava-Jato redundaram nessa tramitação de cartas marcadas - essa é a narrativa que a diretora Maria Augusta Ramos traça sem perder o foco.

Norteado por uma visão de mundo consolidada, portanto, o filme é menos uma investigação de causas do que um obituário mesmo do governo Dilma. O Processo começa e termina com a polarização popular, e de um ponto a outro registra imagens de bastidores e do palco da política para demonstrar como esse teatro descolado dos interesses do país se desdobra em Brasília. O filme acompanha nomes-chave do PT (principalmente José Eduardo Cardozo e Gleisi Hoffmann) e uma figura central do impeachment - a autora do pedido, a advogada Janaína Paschoal - para personificar a polarização.

O documentarista Frederick Wiseman diz que não expõe sua própria figura de diretor e entrevistador em seus filmes porque o simples ato de ligar a câmera diante das pessoas já as faz vestir uma máscara social que corresponde à verdadeira natureza dessas pessoas. Em O Processo, Maria Augusta Ramos parte da mesma crença, e não seria diferente: políticos são criaturas midiáticas, e nem é preciso um palanque tão iluminado assim para que os personagens do filme incorporem suas máscaras. Cardozo é o clássico político negociador, das intenções nunca evidentes; Hoffmann é a senhora dos sorrisos e da sensatez, a conciliadora; Paschoal faz a figura emocional que contrapõe a frieza calculada dos dois primeiros (o que faz dela uma presença simpática no filme, para muito além do papel de inocente útil que a advogada exerceu para a Oposição no impeachment).

A partir desses papéis bem definidos, o filme cria dinâmicas de polarização para comprovar suas teses: Paschoal está sempre grata tirando fotos, jurando apoio e dando entrevistas a canais sem expressão, Cardozo fica impaciente com uma selfie que demora demais; Paschoal bebe solitária seu Toddynho, quixotesca nas suas fantasias de justiciamento, Cardozo parece um ator hollywoodiano interpretando seu próprio papel, cercado de auxiliares etnicamente diversos. As falas de Hoffmann e de Gilberto Carvalho que fazem a análise do ocaso do PT servem não só como ressaca do impeachment mas também ratificam enfim o discurso desesperançado de O Processo: a política tradicional de representação não atende aos interesses do país e o que temos são só as máscaras, os jogos, as fantasias.

Quando realizou seus documentários mais conhecidos, sobre o sistema judicial brasileiro, Justiça e Juízo, Maria Augusta Ramos já partia de uma estrutura parecida: mostrar de dentro como os rituais da burocracia brasileira só servem para realimentar seus próprios jogos de poder e aumentar o abismo que separa as instituições e a população que elas deveriam atender. Se Janaína Paschoal surge como a verdadeira protagonista de O Processo - a presidente Dilma é mais um espectro que aparece raramente em ocasiões oficiais ou se entregando à válvula de escape da ovação popular - talvez seja porque a advogada cumpre no filme a mesma função dos réus desassistidos de Juízo, ser a leiga do processo, a nossa representante civil "pura" dentro da máquina que a todos desumaniza.

Que os senadores da República, em certo momento, sequer saibam reconhecer os prédios de Brasília quando enfim trocam os corredores do Congresso pela rua é o tipo de imagem de ouro que todo cineasta busca quando faz uma obra pensada para ser a síntese de algo.

Nota do Crítico
Bom