Ótimo “monstro” não é o bastante para O Primata superar seus problemas
Filme do macaco assassino se daria melhor se apostasse mais no básico
Créditos da imagem: Cena de O Primata (Reprodução)
Lucy (Johnny Sequoyah) está retornando para a casa de sua família, uma elaborada mansão empoleirada num penhasco do Havaí (EUA), pela primeira vez desde que se mudou para outro estado a fim de fazer faculdade. A irmã mais nova da moça, Erin (Gia Hunter), ressente o afastamento da protagonista, enquanto o pai delas, o novelista de sucesso Adam (Troy Kotsur), mal gasta tempo com a filha durante essa rara visita – ele tem uma reunião de trabalho importante em outro local.
Pronto, está dado “subtexto” de O Primata, filme de Johannes Roberts (Medo Profundo) que, vai saber por que, acredita ser necessário falar de afastamento familiar e luto – a partida de Lucy para a faculdade coincidiu com a morte da matriarca da família – em uma história sobre adolescentes encurralados por um chimpanzé violento. A cereja no bolo: o símio em questão, Ben, é “herança” deixada pela falecida, uma linguista que o adotou e o treinou para se comunicar com a família. Quando Ben contrai raiva, esta lembrança viva de uma mãe que não está mais lá se torna também uma ameaça letal.
Talvez na tentativa de nos convencer de que estão fazendo “horror elevado”, os roteiristas de O Primata (Roberts assina o texto com seu parceiro habitual, Ernerst Riera) pontuam o começo e o final do filme com essa história de reconexão e superação familiar. É uma costura protocolar, no entanto, que trai esse caráter pelo contraste: não só as cenas que estabelecem essa história humana surgem pouco naturais na dinâmica da trama, como também perdem em energia criativa para todo o resto que lhes cerca.
O coração de O Primata está de fato na construção e resolução de situações – no melhor estilo de outros terrores-B de ataque animal, este aqui é mais uma escape room do que um filme, no fim das contas, e passa longe de ser ruim nisso. Com o diretor de fotografia Stephen Murphy (Heart Eyes) e o montador Peter Gvozdas (Uma Noite de Crime), Roberts acerta principalmente na maneira de mostrar o seu “monstro”, construído num amálgama de diferentes efeitos práticos, como uma ameaça real dentro dos espaços em que ele circula.
Ben se move menos em O Primata do que se moveria em um filme de maior orçamento, que provavelmente teria investido num macaco de CGI, mas em troca parece muito mais táctil diante da câmera. Ademais, o filme responde à falta de recursos concentrando a “área de ataque” do seu chimpanzé a algumas partes específicas da casa – a sala de estar é cenário de uma cena especialmente tensa, por exemplo, e a beira da piscina é o principal palco para os confrontos entre ele e os humanos.
São decisões espertas, que denunciam um cineasta interessado e versado na rapidez e eficiência de um cinema de gênero sem muita frescura. A ideia que realmente empolga O Primata é a de prender, entreter e deixar o espectador ir, sem precisar ensinar nada a ele pelo caminho. Pop pelo pop, terror pelo terror. O que atrapalha a diversão é quando o filme gasta o nosso tempo e paciência fazendo exatamente o contrário disso.
*O Primata chega aos cinemas brasileiros na quinta-feira (29).