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Crítica

O Preço do Amanhã | Crítica

Sci-fi cheio de juventude não sabe, ironicamente, criar um herói que seja jovem de verdade

Marcelo Hessel
03.11.2011
20h00
Atualizada em
21.09.2014
14h30
Atualizada em 21.09.2014 às 14h30

Ficções científicas com "sacadinhas" são a especialidade do roteirista e diretor Andrew Niccol, de Gattaca, O Show de Truman e S1m0ne. Em O Preço do Amanhã (In Time), a premissa permite várias delas.

o preço do amanhã

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A trama se passa em uma sociedade que conseguiu bloquear o gene do envelhecimento. Todo mundo cresce até os 25 anos, e depois pode permanecer jovem pra sempre - contanto que pague por isso, afinal a superpopulação do planeta é uma preocupação geral. O tempo é a moeda de troca. Os mais ricos vivem séculos. Os mais pobres, assim que completam 25 anos, passam a conviver com uma contagem regressiva diariamente.

Então frases corriqueiras como "tem um minuto?" ou "não tenho tempo para namorar" ou "belo relógio o seu" - dá pra ficar enumerando as sacadinhas - ganham outro contexto. O protagonista, que não tem tempo a perder, é Will Salas (Justin Timberlake), um homem da periferia falsamente acusado de assassinar um milionário para roubar seu tempo. Na fuga, por que não?, ele decide desafiar o sistema.

O Preço do Amanhã é o tipo de filme formatado para agradar sem fazer muito esforço. Seu discurso à Robin Hood tem apelo atemporal (especialmente em tempos de Occupy Wall Street) e a premissa permite não só as sacadinhas como dá a Hollywood o salvo-conduto de aproveitar todos os seus astros bonitos e prematuros sem a dor na consciência de jogar os velhos para escanteio (lembrando que ninguém envelhece na trama).

Então Timberlake, Amanda Seyfried, Alex Pettyfer, Matt Bomer e Cillian Murphy correm de um lado para o outro, com o gás da juventude, como se estivéssemos vendo 007 - No Jardim da Infância. O herói inclusive se apresenta como "Salas, Will Salas" na cena do jogo de pôquer, jamesbondiana por excelência. Completa o pacote piano-bar o obrigatório clima vintage, presente na arquitetura de concreto e nos carros antigos de decalque fosco.

Debaixo dessa casca de suspense-de-bom-gosto, porém, O Preço do Amanhã tem visíveis rachaduras. Um esmerado design de produção e um elenco fotogênico não salvam um filme que, conceitualmente, não entende a trajetória do herói.

A questão não é a competência de Timberlake; Will Salas é um personagem mal construído. Ele está lutando contra um sistema patriarcal - no filme, os ricos são ricos por herança - mas tem, ele próprio, a proteção de uma "herança": o pai herói de Will morreu lutando contra o sistema.

Niccol obviamente incluiu esse elemento no filme para aproximar o herói do vilão (o antagonista vivido por Cillian Murphy é o único que sabe do passado de Will), mas não percebeu a hipocrisia que isso gera: é um filme que critica privilégios de hereditariedade e, mesmo assim, elege como herói um herdeiro. Na prática, Will se rebela contra o sistema não porque quer, mas porque a rebeldia "está no seu sangue".

É o tipo de coisa que um bom roteirista saberia evitar. Andrew Niccol - assim como seu casal fora da lei que corre contra o relógio mas encontra tempo pra brincar de pontaria como dois jovens Bonnie & Clyde - aparentemente estava mais preocupado em emplacar mais uma sacadinha. No fim, O Preço do Amanhã é uma ficção científica cheia de mocidade que não sabe, ironicamente, criar um herói que seja jovem de fato, livre das referências (James Bond, o pai) do passado.

O Preço do Amanhã | Cinemas e horários

O Preço do Amanhã
In Time
O Preço do Amanhã
In Time

Ano: 2011

País: EUA

Classificação: 12 anos

Duração: 109 min

Direção: Andrew Niccol

Elenco: Justin Timberlake, Amanda Seyfried, Cillian Murphy, Olivia Wilde, Alex Pettyfer, Johnny Galecki, Matt Bomer, Vincent Kartheiser, Yaya DaCosta, Toby Hemingway, Bella Heathcote, Shyloh Oostwald

Nota do Crítico
Regular

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