O Preço da Verdade - Dark Waters

Filmes

Crítica

O Preço da Verdade - Dark Waters

Cerebral, drama de isolamento acumula tensões e potencializa sua entrega emocional

Marcelo Hessel
13.02.2020
19h55
Atualizada em
16.02.2020
17h17
Atualizada em 16.02.2020 às 17h17

Embora tenha algumas obsessões particulares em sua carreira, como os temas do melodrama clássico, Todd Haynes é um autor difícil de catalogar a partir de sua obra. O próprio diretor diz em entrevistas que varia de narrativa de filme para filme, mas uma constante nos seus trabalhos, segundo ele, é que há um componente emocional que acaba aflorando mesmo nos experimentos intelectuais mais austeros.

Isso é absolutamente válido para O Preço da Verdade - Dark Waters, drama de investigação e tribunal que acompanha o trabalho de 20 anos de um advogado para levar aos tribunais os crimes ambientais da DuPont envolvendo a criação do Teflon. Na realidade, parece que todo o filme foi concebido a partir desse desafio envolvendo emoção e austeridade: como se engajar emocionalmente numa história que, em resumo, é uma luta solitária e frequentemente invisível pelos caminhos da burocracia e da lei?

Esse desafio é, em última instância, a própria luta do advogado, e o filme a assume pra si. Mark Ruffalo faz Rob Bilott, que começa o filme sendo promovido a sócio de uma firma de advocacia conhecida por defender gigantes do setor químico. Ao representar um fazendeiro cujo terreno foi contaminado pelo lixo tóxico da DuPont - seu processo de empatia por um raro cliente que não é uma entidade sem face - Bilott rapidamente se transforma no clássico denunciante do cinema, o whistleblower quixotesco que compra a briga contra os moinhos do sistema.

Há ecos de O Informante e Todos os Homens do Presidente em O Preço da Verdade, principalmente na forma como Haynes situa espacialmente a epopeia de Billott. A exemplo desses dois outros filmes, os ambientes por onde o protagonista passa ajudam não apenas a definir sua história emocionalmente mas também a dar o senso de escala dos desafios que ele tem diante de si, e que se renovam a cada virada de roteiro. Haynes faz dessa busca pelos espaços um capricho pessoal; O Preço da Verdade foi rodado na mesma Cincinatti e nos arredores onde a trama baseada em fatos se situa.

Há uma cena que referencia Todos os Homens do Presidente quase literalmente, quando Billott está deixando o prédio da DuPont e atravessa a garagem vazia com receio de ser morto. Esse thriller vertiginoso e potencialmente explosivo só existe na cabeça dos personagens, porém, porque para nós Haynes continua mantendo a cadência e a distância desafetada - e austera - com que pacientemente nos apresenta essa história ao longo dos 20 anos do processo judicial. Isso faz de O Preço da Verdade um quase melodrama (no sentido de que o mundo de acordo com o protagonista é tragicamente distinto da realidade imposta a ele) com características de suspense kafkiano, onde nada acontece e tudo acontece (como a falta de promoção da advogada mulher, entre outras coisas que transcorrem no segundo ou no terceiro plano).

Esse acúmulo de tensões e viradas que não têm entrega ou vazões se reflete acima de tudo no corpo do Ruffalo, que parece entrar em entropia - uma hora sua cabeça desaparecerá definitivamente, engolida pelo pescoço e absorvida pelo tronco.

Aos poucos O Preço da Verdade, entre tantas dicotomias (o corporativo e o individual, o orgânico e o industrial, o calor e a frieza, a vitória e a derrota), se revela uma história muito especial de contraposição do que é humano, vivo, e do que é morto. O uso das cores carrega isso, há um resquício de vida e morte presente na própria imagem, granulada para emular as texturas do 35mm (Haynes acabou rodando em digital a contragosto, e o diretor de fotografia Ed Lachman compensa isso usando, por exemplo, lentes antigas para dar à imagem essas camadas residuais que eles buscam).

Essas escolhas isolam Ruffalo em uma série de ambientes claustrofóbicos e desoladores, todos eles carregados pela famosa tensão que se corta no ar. (Essa expressão de cortar o ar não poderia ser mais apropriada, já que estamos falando de resíduos químicos que literalmente contaminam os ambientes.)

O próprio Haynes cita Todos os Homens do Presidente como um exemplo do isolamento que ele busca em O Preço da Verdade, e esse isolamento (presente na atenção que a câmera dá para salas e corredores e ruas, presente na distância que o protagonista toma da câmera, toma dos outros personagens) se configura num dos muitos obstáculos colocados para que a gente, como espectadores empáticos, se veja obrigado a reagir emocionalmente para acessar esses personagens e seus dramas. Quando isso acontece em O Preço da Verdade, o efeito é devastador.

Nota do Crítico
Excelente!