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Crítica

O Passageiro | Crítica

Jaume Collet-Serra faz seu filme com Liam Neeson mais delirante e decidido

Marcelo Hessel
07.03.2018
19h28
Atualizada em
14.03.2018
20h13
Atualizada em 14.03.2018 às 20h13

Dos filmes que o cineasta Jaume Collet-Serra realiza em parceria com Liam Neeson, como Sem Escalas e Noite sem Fim, O Passageiro (The Commuter) parece o mais rebuscado. Arrojados saltos temporais marcam, em forma de montagem, o início da trama - para mostrar os dramas do protagonista com a economia doméstica da família e para pontuar sua rotina pegando sempre o mesmo trem para o trabalho. Ao mesmo tempo, há um flerte com arquétipos de dramaturgia (o personagem de Neeson leva romances clássicos para ler no trem e o filme traça uma leve sugestão de que os muitos coadjuvantes de O Passageiro também podem ser tipificados dessa forma).

Essas duas sugestões de início, porém - tanto a narrativa não-linear quanto a metalinguagem -, não se consumam ao longo de O Passageiro. A construção de personagens coadjuvantes como tipos, aliás, que poderiam fazer do filme de Collet-Serra uma espécie de rival de O Assassinato no Expresso do Oriente nesta temporada, é o ponto fraco do longa; no trem há o escroto de Wall Street, a imigrante latina, a adolescente perdida, os tipos realmente se multiplicam, mas eles nunca ganham uma autonomia dramatúrgica, nem deixam de ser peças funcionais de um jogo de gato-e-rato.

Essas constatações não tiram os méritos de O Passageiro, porque afinal é o dispositivo da ação que interessa a Collet-Serra, um diretor cada vez mais apurado no fazer de um cinema personalista que saiba controlar muito bem o ambiente, o tom e a intensidade das arenas em que organiza esses jogos. Há um espaço, um protagonista-herói, um problema a ser resolvido. Mesmo em Águas Rasas isso ficava muito evidente, um filme que Collet-Serra usou para limpar o palato antes de retomar o trabalho com Neeson. De todos os filmes da dupla, nenhum evidencia tanto a figura do ator quanto O Passageiro.

Não faz tanta diferença saber quem é o personagem que Neeson interpreta, um ex-policial que virou vendedor de seguros e precisa solucionar um crime no trem, contra o relógio, para salvar uma pessoa na viagem e também sua própria família. A informação primordial é o que está em risco e seu caráter moral: Collet-Serra enquadra sempre que pode a mão esquerda de Neeson segurando em barras para associar a aliança dele (o casamento como a pedra fundamental da moralidade) ao perigo e às tentações que Neeson enfrenta. Não é por acaso que os tipos secundários de O Passageiro sejam tão superficiais; só há olhos para o protagonista.

De certo modo, Collet-Serra se aproxima menos de Agatha Christie do que de Alfred Hitchcock aqui, mais uma vez colocando o homem de meia idade (mais ou menos) ordinário no lugar errado na hora errada, tendo que salvar o dia e ao mesmo tempo defender seu caráter. Com um jogo inédito de lentes, chamado Cinefade, o cineasta inclusive consegue tirar e colocar o fundo em foco sem precisar alterar o foco que já está no corpo de Neeson em primeiro plano. O ator aparece sempre como pivô da organização da ação, frequentemente como observador dessa ação em primeira pessoa (como no empolgante plano sequência da luta), e nesse sentido O Passageiro já é o grande exemplo de 2018 de como o cinema de ação se aproximou cada vez mais da estética e da dinâmica dos games de ação e tiro, nos úiltimos anos.

O Passageiro não deixa de ser mais um excelente exemplo do vigor que os filmes B preservam em si hoje, e ao mesmo tempo representa uma evolução do cinema feito por Collet-Serra em direção a um impressionismo no registro. Porque se aquelas sugestões rebuscadas do início são deixadas de lado em O Passageiro, o cineasta as substitui por um trabalho bastante vertigonoso de fotografia, tirando e colocando coisas em foco para nos alocar na perspectiva de Neeson (que afinal está buscando focos atrás de respostas para a trama) ao mesmo tempo em que desfila informações visuais, de cores e texturas, para nos manter sempre em movimento naquele mundo fixo de dentro dos vagões.

O resultado é um filme que, no papel, pode parecer muito previsível e manjado, mas que se resolve na imagem como um delírio renovado instante a instante, e que plenamente se sustenta e transcende ao confiar na potência de eleger um ponto de vista decidido, obsessivo.

O Passageiro
The Commuter

Ano: 2018

Classificação: 14 anos

Duração: 135 min

Direção: Jaume Collet-Serra

Roteiro: Ryan Engle, Byron Willinger, Philip de Blasi

Elenco: Stuart Whelan, Georgie-May Tearle, A.k. Steppa, Richard Stanley, Shade Rupe, Tony Pankhurst, Anthony Milton, Peter Meyer, Kyle Jerichow, Alex Jaep, Pete Buzzsaw Holland, Lee Nicholas Harris, Matthew Faucher, Begona F. Martin, Vikki Edwards, Andrew Dunkelberger, Steven I. Dillard, Leigh Dent, Graham Curry, Pamela Betsy Cooper, Bern Collaço, Dilyana Bouklieva, Andres Austin Bennett, Marc Benanti, Neal Beagley, Mark Battershill, David Olawale Ayinde, Lee Asquith-Coe, Alana Maria, Edward Bluemel, David Alwyn, Ben Caplan, Zaak Conway, Adam Nagaitis, Ella-Rae Smith, Pat Kiernan, Nila Aalia, Shazad Latif, Roland Møller, Kobna Holdbrook-Smith, Letitia Wright, Killian Scott, Florence Pugh, Dean-Charles Chapman, Sam Neill, Elizabeth McGovern, Jonathan Banks, Patrick Wilson, Liam Neeson, Vera Farmiga, Patrick Wilson, Sam Neill, Elizabeth McGovern, Jonathan Banks, Florence Pugh, Dean-Charles Chapman, Shazad Latif, Clara Lago, Andy Nyman, Roland Møller, Colin McFarlane, Dilyana Bouklieva, Adam Nagaitis, Kingsley Ben-Adir, Kobna Holdbrook-Smith, Letitia Wright, Damson Idris, David Olawale Ayinde, Jamie Beamish, Nakay Kpaka, Nathan Wiley

Nota do Crítico
Excelente!