Icone Fechar
Filmes
Crítica

O Outro Lado das Redes faz drama de investigação revanchista à sombra do filme de David Fincher

Aaron Sorkin prova, mais uma vez, que não consegue transpor para a direção seu texto afiado

Omelete
5 min de leitura
07.10.2026, às 17H15.

Uma coisa precisa ser dita sobre O Outro Lado das Redes, novo filme de Aaron Sorkin que mergulha na investigação do The Wall Street Journal sobre o Facebook em 2021: considerar a produção uma continuação de A Rede Social, dirigido por David Fincher, é um problema — tanto para a expectativa do público quanto para a trama estrelada por Jeremy Allen White, Mikey Madison e Jeremy Strong.

São dois filmes completamente diferentes em tom e formato. As obras têm em comum apenas a presença de Sorkin como roteirista e a figura de Mark Zuckerberg. Fora isso, nada justifica a ideia de que estamos vendo uma sequência.A Rede Social, o melhor filme da carreira de David Fincher, é um estudo de personagem; um olhar analítico sobre a personalidade de Zuckerberg e sua “genialidade” ao criar o Facebook, mesmo que isso significasse passar filhinhos de papai milionários para trás ou dar um golpe em seu principal aliado. Já O Outro Lado das Redes está mais interessado na investigação sobre no que o Facebook se tornou e na estratégia adotada pela empresa para continuar relevante e crescendo no mercado. Mais do que isso, a abordagem é totalmente diferente.

Omelete Recomenda

Onde o filme de Fincher bebia do suspense para falar sobre a psique raivosa que gerou as redes sociais, o novo longa se aproxima mais de Spotlight: Segredos Revelados e The Newsroom (série da HBO criada por Sorkin) ao construir um drama investigativo encabeçado pelo repórter Jeff Horwitz (White), que passa a receber da engenheira de dados Frances Haugen (Madison) informações confidenciais sobre o comportamento do algoritmo do Facebook. O diretor e roteirista volta a misturar linhas do tempo no quebra-cabeça da história, assim como fez no filme de 2010. Jeff e Frances trabalham juntos entre 2020 e 2021, na troca de segredos, enquanto acompanhamos Zuckerberg (Strong) se preparando para um depoimento no Congresso americano.

Sorkin escreve a trama em um misto de revanchismo contra os males que o Facebook provoca ao mundo e didatismo ao apresentar cada elemento da investigação. Ao colocar Jeff como alguém que pouco entende de tecnologia, o roteiro faz Frances explicar todos os passos que precisa dar e cada uma das informações repassadas. Sorkin vê na trama uma oportunidade de expor que o Facebook sabia do mal que causava ao propagar discursos de ódio e captar engajamento com grupos extremistas. Algoritmos, gráficos e termos técnicos assustam Jeff — e Sorkin, prevendo que o mesmo aconteceria com o público, não deixa quase nada para a audiência interpretar por si só.

None
Divulgação

Quem mais sofre com isso é o Mark Zuckerberg de Jeremy Strong. O diretor pesa a mão ao fazer do criador do Facebook uma figura robótica e sociopata. As interações com Wunmi Mosaku e Bill Burr, que interpretam membros de seu time, ajudam um pouco, mas momentos como uma reunião na sede da empresa ou quando o fundador precisa encarar as imagens da invasão do Capitólio em 2021 o deixam preso na caricatura. Mesmo para a intenção de Sorkin de criticar o CEO, a escolha se torna perigosa por virar um retrato cômico e estranho de uma figura central para as dinâmicas políticas e sociais do mundo atual.

No lado mais interessante da história, Jeremy Allen White e Mikey Madison exibem uma boa química, que funciona na maior parte do tempo. Falta ao diretor, contudo, o mesmo refino de seus textos na hora de filmar os bons diálogos ou criar uma mise-en-scène que provoque no espectador o receio de Frances ao vazar informações sigilosas — que podem destruir sua reputação — e a ansiedade de Jeff em publicar a matéria. Sorkin tem a ideia bem estabelecida, mas ela soa simples demais diante de composições visuais pobres e momentos de pura breguice, como quando Frances pergunta sobre um jogador de basquete comemorando uma cesta para, tempos depois, repetir o mesmo movimento numa celebração.

O diretor também exagera em momentos nos quais filma o corpo de Madison enquadrando suas pernas e decote sem motivo narrativo. A jornada de Frances nunca se define pelo seu corpo, mas sim pelo isolamento social que sofre e pela busca no propósito original do Facebook de uma ideologia para seguir. Parece uma reação ao sucesso de Anora, e não uma demanda do longa.

None
Divulgação

A comparação entre O Outro Lado das Redes e A Rede Social pode até soar injusta com o filme de Sorkin, que até funciona como um drama investigativo decente e se mostra atual e necessário no debate sobre a influência de empresas como a Meta no cotidiano, especialmente na política. No entanto, fica difícil não colocar as duas produções lado a lado quando se tem o mesmo tema e o mesmo roteirista — que sempre declarou querer fazer uma continuação da obra-prima de Fincher — como chamarizes. O didatismo do novo longa não dá margem para julgarmos as atitudes de Zuckerberg ou discutirmos a tese de que o Facebook é apenas um mural imparcial, e que o problema mora nos usuários que o usam de forma nociva.

Tal qual os algoritmos que Frances e Jeff denunciam, Sorkin direciona nosso olhar para sua visão sobre a investigação e sobre Zuckerberg com uma fúria que peca mais pela forma do que pelo texto, tratando o magnata como um vilão excêntrico de James Bond que nunca justifica seu tempo em tela. A sombra de Mark é muito mais impactante quando se fala sobre o que ele e a companhia fazem do que quando sua imagem está, de fato, na tela. E isso diz muito sobre as limitações de Sorkin diretor.

Nota do Crítico

O Outro Lado das Redes

The Social Reckoning

Duração: 113 min
Direção: Aaron Sorkin
Roteiro: Aaron Sorkin
Elenco: Jeremy Allen White, Mikey Madison, Jeremy Strong, Bill Burr
Onde assistir:

Comentários (0)

Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.

Escrever comentário


Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a nossa Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.