O Morro dos Ventos Uivantes faz lindo mas artificial cosplay de paixão e desejo
Com Margot Robbie e Jacob Elordi, nova adaptação do livro de Emily Brontë é conquista estética
Créditos da imagem: Warner Bros.
Uma das escolhas mais curiosas de “O Morro dos Ventos Uivantes” vem logo em seu título, que cerca o nome do livro de Emily Brontë entre aspas. A decisão reforça o caráter de adaptação do material, explica a diretora e roteirista Emerald Fennell. A Internet, por sua vez, respondeu à pontuação com teorias; estaria o casal do filme recriando de forma metalinguística a trama de 1847? A verdade não é tão conspiratória assim, mas não invalida as teorias de fã: “O Morro dos Ventos Uivantes” parece acontecer de fato dentro de aspas.
Fennell adapta o material tomando uma série de liberdades – o irmão de Cathy (Margot Robbie) já morreu, Heathcliff (Jacob Elordi) é um pobre jovem britânico e não cigano, Edgar (Shazad Latif) e Isabella (Alison Oliver) Linton não são irmãos, Nelly (Hong Chau) tem ascendência asiática –, mas permanece a história de dois amantes proibidos cujo timing só não é pior do que suas habilidades de comunicação. Cathy e Heathcliff se amam desde crianças, mas quando ela decide se casar com seu rico vizinho, ele decide fugir. Anos depois, Heathcliff volta, agora rico, e reacende o desejo na mulher, que já trocou alianças com Sr. Linton. Trata-se de uma das narrativas mais adaptadas da história do cinema – há versões da Velha Hollywood, do cinema independente moderno, em espanhol, japonês e italiano. Cada uma com interpretações e ideias diferentes. Para Fennell, O Morro dos Ventos Uivantes é sobre sexo, desejo e, acima de tudo, aesthetics.
De acordo com a diretora, é em respeito a essa linhagem cinematográfica que ela usa as aspas. Ela encara seu filme como uma possível tradução do livro para as telonas, e não como algo definitivo. É um movimento que ela encena se distanciando dos acontecimentos, e os interpretando quase como uma brincadeira de casinha de bonecas. Da direção que os atores seguem ao visual meio gótico, meio TikTok, “O Morro dos Ventos Uivantes” se porta como uma performance do romance de Cathy e Heathcliff. A carga emocional é entregue de imediato, seja através das roupas chamativas de Jacqueline Durran ou das músicas pulsantes de Charli XCX. Essa decisão, talvez pensada para um público acostumado com o imediato e mais propenso ao impacto sensorial reiterado, convida o espectador a ser mais observador do que participante numa lenta sedução. Talvez resulte num efeito oposto da sensação de controle perdido prometida pelo marketing.
Por um lado, isso implica numa série de conquistas artísticas. O design de produção de Suzie Davies transforma a mansão no Morro numa casa carvada em meio a pedras que parecem congeladas no meio de uma explosão, como se a própria estrutura rochosa estivesse uivando. Enquanto isso, a direção de arte de Caroline Barclay e Neneh Lucia faz da Granja dos Lintons uma peça de surrealismo, onde paredes parecem pele, sangue e ossos. Graças à fotografia de Linus Sandgren, esses ambientes opulentos ganham textura e saltam da tela. Entre as colinas e corredores, Robbie e Elordi encarnam versões calculadamente exageradas desses personagens.
Não é um absurdo dizer que todas figuras de “O Morro dos Ventos Uivantes” são pintadas como crianças – algumas birrentas e outras mimadas – e essa linguagem potencializa o aspecto performativo, quase fantasioso de Fennell. Os gestos são grandes, mas nunca humanos. O calor é alto, mas sempre é fabricado. Isso apresenta alguns desafios para o elenco, e ninguém está mais à altura do que Robbie. Seu timing cômico agrega ao filme uma pitada de humor consciente essencial, e o talento da atriz significa que, mesmo nos maneirismos mais caricatos de Cathy, é possível identificar traços de vulnerabilidade e ânsia. Elordi, por sua vez, sofre para encarnar o romântico perdido. Sua atuação mais travada é melhor utilizada quando Heathcliff passa a ser maldoso e vingativo, e a frieza do ator sai do campo do galã misterioso para o indiferente cruel.
O que falta entre os dois, porém, é a atração genuína. Claro, há agarrões intensos e beijos molhados, mas quem mais parece despertar algo genuíno no Heathcliff de Elordi é a Isabella de Oliver, com quem ele eventualmente desenvolve uma relação de “sua bizarrice completa minha bizarrice”. A verdade é que Fennell parece tão interessada em embelezar a paixão do casal do que se deixar ser tomada por ela. Em mais de uma ocasião em “O Morro dos Ventos Uivantes”, Cathy chama Heathcliff de brinquedo. Mas, nas mãos da cineasta, todos os personagens parecem ter saído de uma caixinha de brincar. Eles se movem de acordo com o ritmo, e portanto jamais chegam a ditá-lo. Até pela minúcia com a qual a produção foi feita, estamos sempre no campo do artificial.
Gera-se algo que parece um role-play, ou – ouso dizer, devido à falta de faíscas – um cosplay. Todos se vestem de acordo, entram em cena e desempenham um papel. Até que, lá pelo final, que retém o desfecho trágico de Brontë, “O Morro dos Ventos Uivantes” ganha ares mais honestos. Fennell,, enfim, rende-se às lágrimas da conclusão, e no processo coloca em tela algo impactante o suficiente para que lamentemos o tempo perdido entre Cathy e Heathcliff mais do que o fazíamos quando os dois se encontravam em seu eterno vai-e-vem. Somos deixados com algo real, tangível e cru. As aspas são, enfim, levadas pelo vento.