Apesar de bom acervo, O Mistério de Marilyn Monroe não tem mistério algum

Créditos da imagem: Cena de O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas (Reprodução)

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Crítica

Apesar de bom acervo, O Mistério de Marilyn Monroe não tem mistério algum

Documentário só reforça todas as verdades conhecidas e lendas perpetuadas

Omelete
4 min de leitura
Henrique Haddefinir
30.04.2022, às 19H50

Qualquer grande fã de Marilyn Monroe já conhece quase tudo sobre sua vida e sua morte. De fato, ainda que você não seja fã da artista, também é possível rastrear toda sua vida com uma simples busca no Google. Maior estrela do cinema entre as décadas de 50 e 60, Marilyn já teve sua história revirada por biógrafos, jornalistas, produtores e oportunistas. Absolutamente tudo já se ouviu sobre ela; e seu nome continua sendo um chamariz para mais material sensacionalista. Lançamentos sobre Monroe focam ou em sua vida sexual “escandalosa” ou em sua morte “sombria”.

O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas chegou à Netflix com a promessa de dar novas informações sobre a conspiração que cerca a fatídica noite do dia 4 de Agosto de 1962, quando ela morreu. Dirigido por Emma Cooper, o documentário usa todo o material que o jornalista Anthony Summers colheu na década de 80, quando as investigações sobre a morte da estrela foram reabertas. Summers ouviu quase todos que estiveram próximos de Marilyn durante sua vida e seus últimos dias, para tentar, com isso, criar um panorama mais exato do que teria acontecido naquela madrugada.

Desde o início da década de 60 a fascinação pela vida de Marilyn virou uma fascinação por sua morte. Sobretudo, porque, pouco mais de um ano depois da partida dela, John Kennedy foi assassinado em Dallas e seu irmão Bobby, com quem ela também se envolveu, morreu logo em seguida, em 1968. Foi inevitável, então, que a imprensa passasse anos a fio estabelecendo conexões entre eles. O trio morreu todo na mesma década, os irmãos foram assassinados e há quem jure que, apesar dos registros médicos garantirem que Monroe teve uma overdose de medicamentos, ela também foi executada.

O documentário da Netflix pode trazer informações novas para quem estiver ali investigando a vida da atriz pela primeira vez. Para os que já se interessaram pelo assunto, não há grandes novidades. A famosa biografia de Norman Mailer, lançada em 1973, já traz uma série de fotos sensacionais e cobre grande parte da vida de Marilyn, incluindo detalhes de sua infância complicada, sua relação de abandono com a mãe, o início da carreira quando “sua alma foi devorada pelos poderosos de Hollywood” e seu auge, quando trabalhar com ela já era sinal de problemas, atrasos e transtornos. O documentário passa por tudo isso rapidamente, sem se aprofundar em nada, apenas para chegar aos 15 minutos finais, quando se prepara para dizer o que veio realmente dizer.

Alguém matou Marilyn?

Tecnicamente falando, o trabalho de Emma Cooper é muito bem estruturado. As gravações são realmente interessantes para oferecer ao espectador a visão que as pessoas tinham de Marilyn. O grande problema, contudo, talvez esteja aí. A atriz passou a vida e a morte sendo perseguida e nada do que sabemos dela vem de suas próprias palavras. Todos os registros que podem ser encontrados são suas entrevistas, em que pouco se falava de seu trabalho. Por isso, o documentário monta sua narrativa a partir dos casamentos e relacionamentos da estrela, transformando essa em só mais uma das peças que resumem Marilyn a com quem ela foi para a cama.

As entrevistas são dramatizadas, com atores dublando os áudios, e apesar disso causar certa estranheza no começo, a sobreposição com imagens da carreira de Marilyn faz o recurso funcionar. Esse é o maior mérito de O Mistério de Marilyn Monroe, porque, de fato, esse é um documentário que não oferece nenhuma nova suspeita a não ser aquelas que todos já tinham. No livro sensacionalista de François Forestier, lançado em 2009, toda a ligação entre Marilyn e os Kennedy já tinha sido destrinchada; assim como as diversas teorias de que ela morreu muito mais cedo que a hora oficial, e que um monte de gente esteve em sua casa. O que o documentário faz é apresentar um depoimento contundente, de uma pessoa que acompanhou de perto a evidência, de que os registros oficiais são falsos.

O mais incoerente acerca dessa produção é a maneira como ela se vende como um grande mistério que já sabe que nada está ali para ser realmente revelado. Há uma certa conformidade de que Marilyn partiu em circunstâncias até bastante comuns, o que só reforça que todo esse escrutínio acabou sendo só mais uma peça de oportunismo e de desconsideração com uma atriz e uma mulher que passou toda sua vida sendo julgada pela ótica alheia... e apenas por ela.

O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas
The Mystery of Marilyn Monroe: The Unheard Tapes
O Mistério de Marilyn Monroe: Gravações Inéditas
The Mystery of Marilyn Monroe: The Unheard Tapes

Ano: 2022

País: EUA

Duração: 101 min

Direção: Emma Cooper

Elenco: Marilyn Monroe

Nota do Crítico
Regular

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