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Créditos da imagem: O Menino que Queria Ser Rei/Fox/Divulgação

Filmes

Crítica

O Menino Que Queria Ser Rei

Com filho de Andy Serkis, longa quer atualizar a história do Rei Arthur, mas já nasce com uma narrativa ultrapassada

Camila Sousa
31.01.2019
20h03

De tempos em tempos o cinema tenta modernizar histórias clássicas. É assim com Don Quixote, as histórias dos Irmãos Grimm e também com a lenda do Rei Arthur, uma das maiores de todos os tempos. Na ânsia de criar um produto que chame a atenção das novas gerações, os estúdios apostam em modernizações e adaptações que nem sempre dão muito certo. Protagonizado por Louis Ashbourne Serkis (filho de Andy Serkis), O Menino Que Queria Ser Rei tem erros e acertos que resultam em um filme mediano.

Ao invés de Arthur, a história foca em Alex, um garoto comum que vive em Londres com a mãe. Sua coragem vem do fato de enfrentar os valentões da escola (Lance e Kaye) e ajudar seu amigo assustado Bedders. Uma noite, ao fugir da dupla que quer lhe dar uma boa surra por conta desse enfrentamento, Alex cai em uma obra abandonada, vê uma espada fincada na pedra e a retira dali, se tornando agora o “novo Arthur”.

Ao estabelecer essa história, o filme cita que o próximo grande rei retornará quando o mundo estiver escasso de bons líderes e a paz mundial estiver ameaçada. Em uma segunda ou terceira camada, isso fala rapidamente sobre os chefes de estado atuais, mas não há muito desenvolvimento político nesse sentido, já que o filme é feito totalmente para crianças. O resultado dessa frase, na verdade, é que uma adormecida Morgana (Rebecca Ferguson, praticamente irreconhecível com uma pesada maquiagem) começa a sentir a fraqueza dos homens e por isso vê sua chance de voltar.

É aqui que um ponto negativo, ou pelo meno curioso, de O Menino Que Queria Ser Rei aparece. Para quem conhece a história de Arthur, Morgana é extremamente perigosa e uma ameaça difícil para os heróis. Mas sua presença neste longa é pouco utilizada. Sim, há um clímax com uma grande batalha, mas antes disso a vilã vive totalmente no plano das ideias e por isso é difícil visualizar o medo que ela representa nessa história.

Se Morgana é o pilar do mal que fica em segundo plano, a ajuda que Alex recebe é de Merlin, interpretado em sua versão jovem por Angus Imrie e por Patrick Stewart quando assume sua verdadeira forma. Quem espera muitas cenas com o professor Xavier de X-Men pode se decepcionar, já que o mago fica a maior parte do filme em sua forma adolescente para estabelecer um vínculo com o elenco principal. Imrie é um bom ator e parece concentrado em todos os momentos em que está em cena. O que lhe prejudica, na verdade, é a simplicidade do roteiro, que coloca Merlin fazendo movimentos de mãos bobos para conjurar suas magias. Assim como outros aspectos do filme, isso parece ter sido colocado para agradar as crianças (e provavelmente vai funcionar), mas torna o longa muito simplório para os pais que as estão acompanhando.

O mais surpreendente sobre O Menino Que Queria Ser Rei é como ele tenta atualizar um conto clássico, mas já chega com uma narrativa ultrapassada. Os diálogos do filme são extremamente óbvios, algo que não se justifica pelo público-alvo. Havia várias formas de apresentar a mesma história com simplicidade, mas com um pouco mais de charme. Essa característica é acentuada pelas falhas do elenco de apoio. Se Louis Ashbourne Serkis e Angus Imrie fazem um bom trabalho, o mesmo não pode ser dito de Tom Taylor e Rhianna Dorris, que interpretam os dois valentões. As falas de ambos já são bem comuns e os dois não conseguem adicionar personalidade ao texto. Outro ponto que piora tudo é o design de produção. A espada de Arthur, apesar de ter um traço diferente aqui e ali, é muito básica, como qualquer outra espada seria. As armaduras que os heróis encontram no decorrer da história são igualmente medíocres e por conta disso o longa perde a pouca personalidade que poderia ter.

De muitas formas o filme de 2019 parece ter sido feito na década de 90. Com um formato redondo de três atos e a jornada do herói completa (da recusa do chamado até a volta para a casa), O Menino Que Queria Ser Rei não é exatamente ruim, apenas extremamente simples, de uma forma que até evoca a nostalgia da Sessão da Tarde, mas se torna esquecível rapidamente. Para quem tem filhos e deseja apresentar a eles a história do Rei Arthur, a produção pode sim ser uma boa porta de entrada, mas há adaptações muito mais completas e fascinantes da Távola Redonda por aí.

Nota do Crítico
Bom