O Mago do Kremlin só funciona por causa de Paul Dano
Filme de Olivier Assayas fica preso entre tratado político e extravagância artística
Créditos da imagem: Paul Dano em O Mago do Kremlin (Reprodução)
Engole essa, Tarantino: Paul Dano é de longe a melhor coisa de O Mago do Kremlin, novo filme do diretor francês Olivier Assayas (Personal Shopper, Acima das Nuvens). De fato, a abordagem que o ator estadunidense faz de seu personagem, o diretor de teatro e conselheiro político russo Vadim Baranov, é tudo o que impede O Mago do Kremlin de ceder sob o peso das expectativas antagônicas depositadas sobre ele.
Por um lado, esta é a adaptação do romance de Giuliano Da Empoli, um jornalista italiano que revestiu sua pesquisa intensa sobre o sistema político russo na era Vladimir Putin com uma camada fina de ficção. Tecnicamente, Vadim Baranov nunca existiu — mas, na prática, ele é um retrato quase exato de Vladislav Surkov, considerado por muitos o principal arquiteto do putinismo e descrito como “um poeta entre lobos” por seu passado nas artes. E o filme, assim como o livro, nem se dá ao trabalho de mudar os nomes dos personagens reais que cercam o protagonista.
Daí que O Mago do Kremlin se entrega, por vezes, a alguns dos chavões mais emblemáticos do drama político inspirado em fatos. Elipses temporais, por exemplo, são recorrentes. Adaptado pelo próprio Assayas, ao lado de Emmanuel Carrère (ele mesmo um romancista por profissão), o livro de Empoli se condensa notavelmente em períodos de destaque da trajetória do protagonista, pulando os anos menos importantes e se esforçando para nos dar pelos diálogos a informação necessária para preencher essas lacunas.
A linearidade e clareza dessa estrutura narrativa, de certa forma, é importante para que o público consiga acompanhar as idas e vindas políticas da trama a partir de uma referência de tempo real — e também para que se desenhe um arco de personagem convincente para Baranov, apesar da necessidade de cortar partes do livro e da própria vida do homem que o inspirou. Assayas e Carrère, importante dizer, não fazem um mau trabalho nesse sentido. O Mago do Kremlin tem seu interesse como tratado dramático sobre um processo político essencial para entender a contemporaneidade.
Acontece que, por trás das câmeras, Assayas não parece confortável com as próprias ideias. Mais conhecido por híbridos de gênero temperamentais, frequentemente metalinguísticos — ou, ao menos, com pezinho na fantasia — o cineasta por vezes se aventura nesse tipo de história política “pé-no-chão” (vide Carlos - O Chacal e Wasp Network: Rede de Espiões, por exemplo). Talvez motivado por uma vontade de contar histórias correntes, ou que considera importantes, ele se vê restringindo os próprios instintos em filmes como O Mago do Kremlin. Mas nem sempre funciona.
Às vezes, esses tais instintos escapam pelas frestas das formas mais curiosas: em uma cena de jantar perfeitamente rotineira, por exemplo, a conversa é interrompida com um corte seco da montadora Marion Monnier, parceira criativa frequente de Assayas, sincronizada com o estalar de dedos do protagonista. E o diretor perde a compostura quando conduz Alicia Vikander (sua musa na série Irma Vep, de 2022) como Ksenia, o grande amor da vida de Baranov, apresentada diante da câmera como uma criatura alusiva, escorregadia… quase mística, enfim, como tantos elementos do cinema de Assayas.
De qualquer forma, o resultado é um filme ditado por certa autocensura — com exceção da performance central. Tudo no Vadim Baranov de Paul Dano é deliberado: a voz monótona, a expressão amortecida, a cadência entediada que se energiza quando confrontada com um desafio criativo, o olhar ressabiado de quem entende a responsabilidade terrível por trás de seus atos, mas nem por isso se recusa deles. Dano faz entender a combinação de ambição e fluência cultural que transforma seu personagem (e a contraparte real dele) numa força tão definitiva para moldar a cultura de um século perfeitamente maleável.
O Mago do Kremlin sustenta suas 2h30 de duração por causa dele, e é difícil imaginar como seria sem ele. Se isso não é talento, difícil entender o que é.
O Mago do Kremlin
Le mage du Kremlin
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