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Crítica

O Lar das Crianças Peculiares | Crítica

Comedido, Tim Burton embarca em uma fantasia com cara de filme de super-herói

Thiago Romariz
29.09.2016
19h10

É impossível ler O Orfanato da Srta. Peregrine para Crianças Peculiares e não pensar em Tim Burton. Da descrição melancólica de Ransom Riggs até as fotos espalhadas pelo livro, tudo remete à estética gótica e caricata consagrada pelos filmes do cineasta. Mas por incrível que pareça, o longa se distancia da bizarrice vista em Sweeney Todd, Edward Mãos de Tesoura ou Beetlejuice. O Lar das Crianças Peculiares é muito mais um filme infantil de super-heróis do que uma comédia aventuresca com os traços de Burton.

A semelhança com os X-Men, por exemplo, não é leviana. Afinal, as Crianças do título têm poderes que são inexplicados e responsáveis por deixá-los à margem da sociedade. Além disso, todos eles têm a tutela de uma Professora X, a Senhorita Peregrine, interpretada por Eva Green. Para introduzir o espectador à este mundo, o filme apresenta Jake (Asa Butterfield), um garoto que sofre bullying dos colegas e que perde o adorado avô de forma trágica. Antes de morrer, o avô faz um pedido e o menino decide ir ao encontro do lugar que estava sempre nos contos de ninar contados pelo velho - o Orfanato da Srta. Peregrine.

Burton apresenta as crianças e os poderes de cada uma com a parcimônia necessária - nenhuma delas tem tempo de tela a mais ou a menos, a não ser o casal protagonista, Emma e Jake. A relação dos dois é um dos pontos falhos do roteiro, que consegue equilibrar com a presença dos coadjuvantes, mas não é eficiente na hora de aprofundar os problemas vividos pela dupla. Jake tem pais ausentes, um avô tido como maluco e se vê no meio de uma fantasia inexplicável de repente - nada disso é explorado. O mesmo serve para Emma, que tinha uma relação antiga com o avô de Jake e tem a experiência de 80 anos guardada no corpo de uma garota de 16.

Tim Burton se nega a discutir os dramas do livro de Ransom Riggs. Enquanto a publicação faz referências claras à guerra, alcoolismo e à iminência da morte, o filme joga esses temas na tela de forma superficial. As mudanças em relação à obra original não param por aí. Há trocas de poderes, um novo vilão (Samuel L. Jackson) e adição de cenas muito diferentes no primeiro livro da franquia, que hoje possui quatro capítulos (veja mais aqui). Pontualmente, essas adaptações não prejudicam o filme, mas pode irritar os fãs mais puristas. Na narrativa, a maior diferença é a opção por não dramatizar tanto o psicológico dos personagens.

Tim Burton e sua roteirista, Jane Goldman, decidiram seguir um tom mais infantil, de Sessão da Tarde, do que um conto macabro sobre crianças peculiares/problemáticas presas na década de 1940. A escolha fica clara nas cenas de batalha no parque de diversões, no stop-motions de algumas caveiras e até na animação de um elefante mecânico. Nada soa tão obscuro, mas sim divertido e pitoresco, mas com o DNA de Tim Burton, que por vez ou outra deixa o seu lado mais macabro aparecer - a cena do banquete dos olhos e da transformação dos etéreos são bons exemplos.

Com essa mistura de brincadeira de crianças e pesadelos, O Lar das Crianças Peculiares mostra um Tim Burton menos preocupado em se exibir e mais atento à diversão do público. O filme desperdiça alguns personagens e questões de potencial, mas entrega uma aventura de estética e ritmo condizentes com a proposta do livro de Ransom Riggs.

 

O Lar das Crianças Peculiares
Miss Peregrines Home for Peculiar Children
O Lar das Crianças Peculiares
Miss Peregrines Home for Peculiar Children

Ano: 2016

País: EUA

Classificação: 12 anos

Duração: 127 min

Direção: Tim Burton

Roteiro: Jane Goldman

Elenco: Eva Green, Asa Butterfield, Ella Purnell, Samuel L. Jackson

Nota do Crítico
Bom

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