Com uma honrosa exceção, O Jogo do Predador é melhor no papel do que na prática
Charlize Theron estrela filme da Netflix que nunca cumpre todo seu potencial
Créditos da imagem: O Jogo do Predador (Reprodução)
Foram incontáveis os momentos, durante a pouco menos de 1h30 de duração de O Jogo do Predador, em que este crítico se pegou pensando: “Agora vai!”. A produção da Netflix está cheia desses pontos de ignição, e o maior deles vem quando — não se trata de spoiler, já que todos os trailers e materiais promocionais do filme entregavam a virada da trama – a protagonista Sasha (Charlize Theron) descobre que o até então solícito Ben (Taron Egerton) na verdade é um assassino em série canibal, determinado a caçá-la pela selva da Austrália e transformá-la em sua próxima refeição.
Até ali, o filme de Baltasar Komákur (Evereste) de certa forma justifica sua estrutura vacilante. É tudo preparação de terreno, afinal, e o cineasta islandês certamente se esforça para fazer dessa preparação uma jornada agradável, pontuada por bela fotografia de natureza (assinada por Lawrence Sher, de Coringa), e valores de produção que em muito ultrapassam a média das produções de streaming. As filmagens em locação impressionam, assim como os efeitos especiais pontuais utilizados para frisar condições mais extremas — especialmente na boa sequência de abertura, ambientada em uma montanha perigosa na Noruega, onde Sasha enfrenta trauma fundador de sua personalidade.
Da metade para frente, no entanto, fica mais difícil perdoar O Jogo do Predador por sua hesitação, até porque ela se transforma em contrato quebrado com o espectador. Veja só: quem veio para ver um filme de perseguição na floresta australiana, como o material promocional prometia, simplesmente não vai encontrá-lo. Todas as sequências de ação aqui parecem estar pela metade, como se não quisessem se comprometer em ser o que são. Sasha foge, é encontrada, é presa, é arrastada de um lado para o outro, mas Komárkur e seu montador habitual (Sigurdur Eythorsson) não exploram nenhuma situação pelo seu valor dramático ou seu impacto físico.
Não existe maratona de ação, nem aquele prazer meio mecânico de entender como a nossa protagonista vai se safar dessa ou daquela dificuldade. Ben e Sasha, no papel, são um duo de habilidades bem pareadas — o que quer dizer que são um desafio de verdade um para o outro —, mas O Jogo do Predador não parece querer ser o filme sobre esse confronto. E estaria tudo bem, é claro, se ele quisesse ser alguma outra coisa interessante. Mas a impressão é que sempre que o roteirista Jeremy Robbins (Uma Noite de Crime) esbarra com alguma boa ideia, não parece achá-la boa o bastante para investir sua história toda nela.
O resultado é um longa cheio de promessas, mas poucas entregas. Quase um terror de serial killer genuinamente macabro (a performance animalesca de Egerton como o vilão é louvável, mas está no filme errado), quase uma história de homem vs. natureza, quase um drama de ação sobre luto e superação. Quase tudo, e quase nada de realmente excitante — com a exceção de uma sequência, lá no final, em que o atletismo de Theron, a escala da produção e o olhar admirado de Komárkur se juntam para criar alguns minutos de cinema palpavelmente ansioso. É emocionante, mas é muito pouco.
O Jogo do Predador
Apex
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