O Homem Invisível

Créditos da imagem: O Homem Invisivel/Universal Pictures/Divulgação

Filmes

Crítica

O Homem Invisível

Suspense de Leigh Whannell acerta no clima e cria tensão, mas perde chance de investir no psicológico

Julia Sabbaga
26.02.2020
16h31

Depois que A Múmia (2017) teve uma performance abaixo do esperado na crítica e na bilheteria, a Universal fez a sábia decisão de abandonar a ideia do Dark Universe, um conjunto de remakes dos filmes de monstros do seu catálogo que seriam interligados. Sua nova estratégia, que aposta na visão individual de diretores para recontar histórias clássicas, começou com Leigh Whannell, roteirista de Jogos Mortais e Sobrenatural, que ficou responsável pela direção de O Homem Invisível, produção baseada no personagem de H.G. Wells

A decisão do estúdio de entregar maior liberdade para cada projeto tem suas vantagens e desvantagens. Enquanto a nova versão de O Homem Invisível tem uma temática muito mais atual, que analisa efeitos de trauma e histórias de abuso, sua ligação com o material fonte impede que ele invista em um suspense psicológico que talvez fosse mais interessante para a história. Whannell, que entrou no projeto sugerindo que o novo filme fosse focado no olhar da vítima do protagonista, usou o material de Wells como uma inspiração leve, que se limita ao simples poder de invisibilidade de um cientista.  

O longa foca em Cecilia (Elisabeth Moss), uma mulher que foge de um relacionamento abusivo com o cientista milionário Adrian (Oliver Jackson-Cohen), e lida com seus traumas até o dia em que o ex parece ter cometido suicídio. Com o passar do tempo, no entanto, Cecilia passa a testemunhar acontecimentos sinistros que a fazem suspeitar que ele não está morto, e sim descobriu uma maneira de se tornar invisível para atormentá-la. A sinopse poderia indicar um terror psicológico promissor, que brincaria com a dúvida da existência do homem invisível de fato, mas o longa de Whannell rejeita as pretensões e não induz o espectador, e nem mesmo sua personagem, a pensar o contrário do que acontece. Desde a primeira visita da assombração, o diretor deixa clara a presença de Adrian através de movimentos de objetos ou uma respiração aparente.

Sem a opção de brincar com a mente da protagonista, Whannel investe muito bem em explicitar o elemento assustador no vazio, encontrando a maneira perfeita de brincar com as expectativas. A direção de O Homem Invisível acha seu brilho no silêncio e faz o público prender a respiração com quadros simples de uma cadeira, uma porta, ou qualquer elemento que faça o espectador imaginar o que poderia estar na filmagem do nada. O tom do suspense de Whannell já tem seu primeiro êxito na cena de abertura do longa, que mostra Cecilia escapando lentamente da casa de Adrian, na ponta dos pés, em um clima de referência muito bem feita a Dormindo com o Inimigo

Sustentado pela performance impecável de Moss e uma trilha sonora marcante de Benjamin Wallfisch, O Homem Invisível faz um ótimo trabalho em evidenciar suas qualidades, mas tem um roteiro vacilante como base. Personagens se virando abruptamente contra a protagonista ou reviravoltas que seriam facilmente evitáveis deixam sensação de potencial desperdiçado, assim como a decisão de não mostrar a dinâmica do relacionamento de Cecilia e Adrian antes da fuga. Enquanto isso serviria a um filme que questionasse a sanidade da personagem, em uma trama direta como esta conhecer a personalidade do vilão deixaria tudo mais amedrontador. As falhas de O Homem Invisível, tradicionais de um suspense comum, ressoam mais fortemente exatamente pelas suas forças, que prometeriam um filme superior.

A ideia central, que funciona no filme de Whannell, brinca com as definições de monstro ao mesmo tempo que traz o terror fundamental de Wells à atualidade. Apesar de perder oportunidades, o longa inevitavelmente remete aos melhores momentos de O Homem Sem Sombra e adiciona emoção real, criando tensão e confrontos ainda mais impressionantes de assistir. Mesmo com suas fraquezas, O Homem Invisível é um intrigante pontapé inicial aos remakes de monstro da Universal, prometendo um futuro tão variado quanto surpreendente. 

Nota do Crítico
Bom