O Homem do Norte é um épico exaustivo e convencional ao ponto da decepção

Créditos da imagem: Alexander Skarsgard em cena de O Homem do Norte (Reprodução)

Filmes

Crítica

O Homem do Norte é um épico exaustivo e convencional ao ponto da decepção

Robert Eggers troca estilo e profundidade por blockbuster gritado, mas sonolento

Omelete
4 min de leitura
Caio Coletti
11.05.2022, às 13H45
ATUALIZADA EM 11.05.2022, ÀS 14H29
ATUALIZADA EM 11.05.2022, ÀS 14H29

Talvez a verdadeira prova cabal do talento de um ou uma cineasta seja o quanto ele ou ela consegue imprimir estilo e autoralidade a histórias de energias, intenções e dimensões distintas. E talvez O Homem do Norte tenha sido a primeira vez que Robert Eggers, o diretor americano dos celebrados A Bruxa e O Farol, deparou com esse desafio. É cruel dizer que o prognóstico não é lá muito positivo, porque ele com certeza ainda tem muito para testar e acertar na carreira, mas ao mesmo tempo… O Homem do Norte é, sim, uma decepção para quem esperava coisas grandes do cineasta.

Explica-se: o filme é o primeiro de Eggers com o envolvimento de um dos grandes estúdios de Hollywood, com a Universal lidando com a distribuição fora dos EUA, e também (de bem longe) o mais caro que ele já dirigiu. Orçado entre US$ 70 e 90 milhões, O Homem do Norte é muito maior que A Bruxa e O Farol, e é possível ver esse dinheiro todo em tela. Eggers não economiza no CGI, no tratamento de imagens, na escala de suas cenas de ação, na fluidez de câmera possível quando você tem um cenário completamente equipado, com dúzias de figurantes, para filmar.

Em alguns sentidos, é satisfatório assistir a um artista obviamente devotado à sua forma de arte poder realizá-la sem restrições orçamentárias. Eggers imprime a O Homem do Norte um ritmo narrativo que não existiria nas mãos de um diretor menos detalhista, ligando tempos e ações através de movimentos de câmera espertos e buscando um equilíbrio entre set pieces mais pretensamente arrojadas no visual e uma história contada na chave tonal própria da mitologia antiga (leia-se: épica e soturna, mas também sinuosa e melodramática).

O Homem do Norte adapta a lenda de Amleth, que quando criança vê o pai, um rei viking da ilha de Hrafnsey, ser morto por seu próprio irmão. Inspiração direta para o Hamlet de William Shakespeare, este príncipe nórdico foge do massacre de sua família e cresce (se tornando Alexander Skarsgard) com um único propósito em mente: vingança, pelos meios sangrentos dos vikings. Após ouvir a profecia de uma bruxa misteriosa (Björk), ele se infiltra como escravo na propriedade do tio, Fjölnir (Claes Bang), e trama sua revanche junto com uma jovem feiticeira eslava (Anya Taylor-Joy).

Eggers, que escreve o longa ao lado de Sjón (responsável também pelo queridinho indie Lamb), extrai dessa história só as emoções mais superficiais. O Homem do Norte é um filme de fúria, de irreflexão, de teatralidade. No caminho, ele resvala na noção de que a masculinidade tradicional é ditada por todas essas coisas, mas faz pouco além de reconhecê-la como um ciclo de violência, uma linhagem de niilismo criada pela pura força coercitiva do sangue derramado. O filme anterior de Eggers, O Farol, interrogava bem os mesmos temas, mas O Homem do Norte não se permite pensar sobre si mesmo.

O resultado desse impulso de constante movimento e emoção é um blockbuster gritado, mas aborrecido. Um filme visualmente bem resolvido, mas sem sombra dos floreios plásticos austeros das investidas anteriores de Eggers. O cineasta nunca foi um mago das cores, mas sim um habilidoso manipulador de luz e sombras, um utilizador exímio de close-ups extremos e desfoques, um observador nato de performances intensas. Em O Homem do Norte, ele tem tempo e dinheiro para ser todas essas coisas, mas não tem o material com o qual trabalhá-las de forma significativa.

Por falar em performances, o elenco de O Homem do Norte não tem muito o que fazer com um script tão pouco interessado em entender os próprios personagens. Eles navegam arquétipos com competência típica, e elevam a intensidade quando a história pede (quase o tempo todo), mas expressam pouco de realmente interessante. A exceção é Nicole Kidman, que encarna com comprometimento irrepreensível, na sua rainha Gudrún, a profunda perturbação de uma vida levada em abuso. Nos olhos turvos e ardentes dela mora uma versão de O Homem do Norte que poderia desvelar tanto o apelo universal da mitologia nórdica quanto a sua essencialidade para o mundo contemporâneo.

Eggers escolheu, ao invés disso, dar ao seu filme uma chance (meio distante, diga-se) de lotar multiplexes por aí, e talvez pagar o próprio investimento. Alguns diretores conseguem equilibrar esse compromisso com si mesmos e com a folha de orçamento, mas talvez seja preciso um pouco mais de maturidade, ou mais tentativa-e-erro, para Eggers chegar lá.

O Homem do Norte
The Northman
O Homem do Norte
The Northman

Ano: 2022

País: Estados Unidos

Classificação: 18 anos

Duração: 137 min

Direção: Robert Eggers

Roteiro: Robert Eggers

Elenco: Ethan Hawke, Björk, Anya Taylor-Joy, Alexander Skarsgård

Nota do Crítico
Regular

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