Cena de O Grito (2020), de Nicolas Pesce

Créditos da imagem: O Grito (2020)/Divulgação

Filmes

Crítica

O Grito

Nova versão americana da franquia japonesa gasta boa atmosfera com filme raso, confuso e repetitivo

Arthur Eloi
17.02.2020
12h30

Como reinvenção é parte fundamental do terror, o gênero vai muito além de grandes franquias estabelecidas, mas isso não significa que elas não existam. Um dos melhores exemplos é Ju-On: O Grito, de Takashi Shimizu, que se mantém na ativa desde 1998 entre produções japonesas e norte-americanas. A grande sacada da saga é ter um conceito simples o bastante para se aproveitado diversas vezes, em que cenários de crimes violentos se tornam amaldiçoados pelas almas raivosas das vítimas, que passam a perseguir quem adentra os locais. O criador sempre se envolveu no maior número possível de versões de sua ideia original para garantir que não caísse na mesmice. Logo, não é muito surpreendente que O Grito (2020), filme norte-americano sem qualquer participação de Shimizu, seja tão pouco inspirado.

O novo longa vai a fundo na execução da maldição como uma antologia, e acompanha três histórias paralelas. A principal narra a investigação da detetive Muldoon (Andrea Riseborough) de um brutal homicídio, enquanto as demais trazem um casal assombrado pelos fantasmas, e um corretor imobiliário (John Cho) que tenta vender a casa, sem saber da maldição. A franquia é versátil o bastante para que todas essas tramas funcionassem individualmente, mas a produção nunca encontra um formato bom o suficiente para cruzá-las ou desenvolver qualquer uma delas. Assim, a todo momento o longa alterna entre arcos narrativos sem muita sutileza. Ao ritmo que tudo avança, fica clara a conexão entre os três casos, mas a catarse dessa unificação não é tão forte para justificar a abordagem.

É visível a intenção de homenagear o legado de Ju-On ao demonstrar o quão duradoura, impiedosa e recorrente é a maldição. A forma que tenta se posicionar em meio à linha cronológica de inúmeros projetos da franquia é interessante, mas com tanto a contar em tão pouco tempo de tela (94 minutos) a sensação que fica é de um filme corrido e sem nada a dizer. O formato, pensado para exaltar a versatilidade da premissa, aqui mais atrapalha e incomoda o espectador com seu ritmo rápido e progressão vazia. Para o objetivo que quer atingir, O Grito funcionaria muito melhor como uma série de TV.

Isso não quer dizer que o filme não tenha seus méritos, muito deles ligados à direção de Nicolas Pesce (The Eyes of My Mother, Piercing). O cineasta conduz o horror com sutileza e foca na atmosfera desconfortável, que evoca a sensação de terror japonês do começo dos anos 2000. A frieza dos cenários e das atuações reforça essa impressão, e lembra tanto o trabalho de Shimizu quanto outros representantes da desgraceira nipônica, como os jogos Silent Hill. O que atrapalha esse aspecto mais sensorial não é só o desenvolvimento corrido da trama, mas também as claras tentativas de apelar ao cinema mainstream dos EUA, com sustos gratuitos, barulhentos e pouco impactantes. Desse lado mais exagerado, o que compensa é a ocasional violência gráfica, como em uma cena em que uma personagem fatia os próprios dedos com um cutelo. Já o resto é bem repetitivo, muitas vezes até recriando momentos icônicos dos outros filmes, como a aparição no banheiro ou o susto no carro.

Sem contar os curtas originais, O Grito é o 14º filme da franquia. É compreensível que seja cada vez mais complicado surpreender e inovar, mas o longa faz o mínimo de forma tão preguiçosa que atrapalha até seus acertos. Pesce é uma boa escolha para comandar, mas a falta de concisão e originalidade enfraquecem o seu trabalho. Já faz alguns anos que a saga está distante dos cinemas fora do Japão, mas é melhor continuar assim do que voltar de forma tão segura e tediosa.

Nota do Crítico
Regular