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Filmes
Crítica

David Robert Mitchell volta aos subúrbios no ótimo O Fim da Rua

Diretor de Corrente do Mal segue fixado nos perigos que espreitam no pano de fundo do sonho americano

Omelete
3 min de leitura
13.08.2026, às 14H41.
Cena de O Fim da Rua (Reprodução)

Créditos da imagem: Cena de O Fim da Rua (Reprodução)

Em Corrente do Mal, filme de 2015 que fez o nome do diretor David Robert Mitchell entre a cinefilia, o terror sempre aparecia em segundo plano. A assombração que perseguia a protagonista Maika Monroe, contraída após uma noite de sexo casual com um desconhecido, espreitava no fundo de cada cena, andando calmamente atrás dela e de seus amigos por ruas perfeitamente manicuradas, mas assustadoramente silenciosas. Era um horror que descendia diretamente de Halloween, onde Michael Myers se escondia nos arbustos e nos armários para representar o estrago oculto por trás da normalidade suburbana dos EUA médio.

O Fim da Rua, à primeira vista, não parece ter muito a ver com Corrente do Mal: é uma aventura de verniz familiar com dois astros estabelecidos de Hollywood (Anne Hathaway e Ewan McGregor), co-protagonizada por dinossauros de CGI caríssimos, lançada na rabeira do verão estadunidense, e promovida com ares de blockbuster pela Warner, um dos maiores estúdios de cinema do planeta. Mas assistir ao filme é entender que ele só poderia ter saído da mente de Mitchell, pelo menos na forma que se apresenta aqui.

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A história abre com uma festa no quarteirão de Denise (Hathaway) e Greg Platt (McGregor), onde os dois e seus filhos, Audrey (Maisy Stella) e Brian (Christian Convery), aproveitam todas as diversões clássicas da utopia estadunidense: um bom churrasco, corridas de saco, brincadeiras com balões d’água, um cachorro mal comportado bagunçando o cenário todo, por aí vai. E O Fim da Rua, essencialmente, entende o universo fílmico que construiu essa utopia – não à toa, Mitchell recruta o compositor Michael Giacchino para criar uma trilha sinfônica trabalhada em acordes maiores, que remete aos trabalhos de John Williams para Steven Spielberg durante os anos 1980 e 1990.

É desses filmes, também, que Mitchell empresta as preocupações emocionais do seu roteiro. A crise marital entre Denise e Greg, predicada em segredos quase triviais que eles guardam um do outro, é a crúcis afetiva de O Fim da Rua, mas o texto também pincela as rebeldias ocultas das duas crianças, e as relações conflituosas que eles desenvolvem dentro da esfera social protegida em que trafegam. Enfim: eis aqui um filme como não se via há muito tempo, unicamente interessado nas fraturas da convivência e do afeto no mundo das aparências e enganações construído pelo sonho americano.

E daí chegam os dinossauros, é claro. Quando a vizinhança dos Platt é invadida pelas criaturas pré-históricas sem explicação aparente, Mitchell e seu parceiro de longa data, o diretor de fotografia Mike Gioulakis, estão no paraíso. Como fizeram com as assombrações de Corrente do Mal, eles filmam os lagartões quase como objetos de cena, rastejando (em um caso memorável, literalmente) pelos cenários arrumadinhos do subúrbio como representações vivas do perigo que já vivia nele.

O resultado é chocante (vale o aviso que O Fim da Rua é bem mais gráfico do que o seu filme de verão médio), energizante, familiar e confortável – tudo ao mesmo tempo. É um truque de mágica cinematográfico impressionante, e um que só Mitchell seria capaz de conceber. A nossa sorte é que alguém acreditou nele o bastante para deixar o cineasta realizá-lo.

Nota do Crítico

O Fim da Rua

The End of Oak Street

Ver ficha completa Lauch Icon
14 Ficção científica, Mistério, Thriller
Duração: 100 min
Direção: David Robert Mitchell
Roteiro: David Robert Mitchell
Elenco: Anne Hathaway, Ewan McGregor, Christian Convery, Maisy Stella, Jordan Alexa Davis, P.J. Byrne, Bethany Anne Lind, Emily Kuroda, Denitra Isler
Data de lançamento: 12 de agosto de 2026

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