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Crítica

O Filho de Saul | Crítica

A representação do horror e a maldição de Forrest Gump

Marcelo Hessel
04.02.2016, às 10H29

A opção por acompanhar um único ponto de vista, de um judeu húngaro preso em um campo de concentração nazista na Segunda Guerra, soa primeiro como uma trucagem em O Filho de Saul (Saul Fia, 2015), o filme dirigido por László Nemes que é o favorito a levar o Oscar 2016 de melhor longa em língua estrangeira.

O recurso é ostensivo: a câmera fica colada em Saul (Géza Röhrig) como se estivéssemos em um game de survival horror, e a proporção de tela em 1,37:1, mais quadrada, dá conta da claustrofobia. Nem todo o filme é encenado com close-ups em Saul, mas Nemes realiza diversos planos-sequências em que, frequentemente, o rosto do ator é a única coisa em foco. Na prisão, ele é forçado a trabalhar nas instalações da câmara de gás, preparando outros judeus para a morte, e depois no recolhimento dos corpos. O fato de Saul ser sempre o ponto de referência visual, especialmente nos dois primeiros planos-sequências, torna o entorno uma massa disforme, e só nos resta imaginar o horror naquilo que o filme reserva ao extracampo e aos efeitos sonoros.

Talvez não seja somente uma trucagem, então, a maneira como Nemes escolhe contar essa história. Porque se o Holocausto já foi revivido no cinema tantas vezes, a ponto de se confundir com a espetacularização da guerra, parece ser interessante a decisão de filmar o horror sem de fato mostrá-la plenamente. O poder da sugestão que só o cinema comporta - nos melhores filmes o que não é mostrado no enquadramento tem tanta importância quanto o que é enquadrado, às vezes mais - seria capaz de recuperar o sentido original do horror do Holocausto, o da descoberta?

Com essa pergunta na cabeça, Nemes obsessivamente tenta refazer a história num processo de sinédoque: Saul carrega no rosto envelhecido e nos olhos baços todo o inconformismo e todo o desespero da guerra, como se sua desgraça, individualmente, fosse capaz de representar a dos outros 6 milhões de judeus mortos pelos nazistas. É nessa pretensão que O Filho de Saul tropeça, do meio para o fim, quando a dramaturgia não consegue acompanhar o difícil projeto visual. Saul se torna um Forrest Gump amaldiçoado, que o filme condena ao protagonismo por conveniência.

Se levar mesmo o Oscar, O Filho de Saul não será apenas mais um filme de Holocausto a ganhar o consentimento da Academia. É um filme de experimentação visual cuja carreira internacional já vem desde Cannes 2015, o que lhe dá todo um selo de aprovação "de arte", e que no fim tem uma ou outra coisa a dizer sobre a representação imagética do horror, apesar da visível limitação do seu projeto.

Filho de Saul
Saul Fia
Filho de Saul
Saul Fia

Autor: László Nemes e Clara Royer

Ano: 2014

País: Bósnia e Herzegovina/Hungria/França/Israel/Estados Unidos

Direção: László Nemes

Roteiro: Clara Royer

Elenco: Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Todd Charmont, Jerzy Walczak, Sándor Zsótér, Marcin Czarnik

Nota do Crítico
Bom

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