O Filho da Puta faz road movie inteligente no melhor estilo Otto Guerra
Nova animação do veterano gaúcho tem carisma, maturidade e conhece seu território
Créditos da imagem: Cena de O Filho da Puta (Reprodução)
Não demora muito para o espectador identificar que O Filho da Puta é um filme de Otto Guerra. O traço e as formas expressivas que ele eternizou em Rocky & Hudson (1994) e Wood & Stock (2006), entre outros clássicos da animação brasileira, estão todos aqui. Também não falta seu estilo cru de contar histórias animadas, sem economizar no palavrão, na violência, na sensualidade… estabelecendo assim a animação como mídia (também) adulta, e mostrando que ela é perfeitamente capaz de traduzir o mundo adulto para a tela.
Mas é curioso que essa assinatura fique tão clara em O Filho da Puta, porque este é possivelmente o filme menos Otto Guerra da carreira de Otto Guerra. Escrito pela baiana Carla Guimarães, que enviou o roteiro do longa para o diretor por e-mail sem nenhuma introdução além do seu título impactante, ele é um filme que o gaúcho Guerra divide com três parceiros de direção mineiros (Tânia Anaya, Sávio Leite e Erica Rocha), responsáveis pela relocalização do texto para o sertão de Minas Gerais, e pela escalação de talentos locais emblemáticos, como Gabriel Martins (ele mesmo, o diretor de Marte Um) e Zora Santos, na dublagem.
É nesse cenário árido que Ismael (Martins) insiste com a mãe, uma prostituta conhecida por toda a cidade – que, portanto, o apelida de “filho da puta” –, para saber o nome do seu pai. Jovem, virgem, raivoso e com todas as ideias erradas sobre valor e consciência, ele finalmente descobre o nome do dito cujo e foge da cidade para procurá-lo no litoral, acompanhado apenas do seu cachorro de três pernas, Bacalhau (Matheus Nachtergaele, em sua terceira colaboração com Guerra).
Por mais que a “escola Otto Guerra de animação” prove sua força ao transparecer diante dessas influências externas, sente-se também o aspecto colaborativo. Acima de tudo, o texto de Guimarães não tem a penetrância anárquica que definiu trabalhos anteriores do animador, preferindo ao invés disso construir uma jornada do herói linear, inspirada tanto nos road movies estadunidenses (um personagem parte em uma viagem transformadora, e encontra desconhecidos que lhe ensinam diferentes coisas pelo caminho) quanto na jornada do herói clássica de Joseph Campbell.
O que ela faz bem, sem dúvida, é costurar nessa simplicidade uma série de floreios que afagam o espectador mais atento. Guimarães tem o faro de uma roteirista nata, que obedece as regras claras da causa-e-consequência, dos motivos repetidos que enriquecem uma história e disparam o cérebro do espectador na direção de ideias muito mais sofisticadas do que aquelas que seus personagens conseguem ou devem desenvolver. O Filho da Puta, enfim, é um filme sobre tanto quanto é um filme de, mas chega lá por caminhos muito mais convencionais do que os tipicamente trilhados por Guerra.
E existe aqui, também, uma especificidade que é bastante charmosa. Guimarães escreve com a segurança de quem conhece os ecossistemas que retrata, no interior profundo do Brasil. Seus tipos e suas histórias são genuínas, mesmo que sejam ficcionais, e o espectador nunca se vê distante delas. Você conhece um Ismael, conhece o suplício dele e a forma como reluta em valorizar o que tem de mais importante na vida. É na influência estabilizadora dessa jornada sob a aspereza do grande Otto Guerra, enfim, que O Filho da Puta encontra a fórmula do que pode se tornar o mais acessível – e, nem por isso, menos brilhante – dos filmes de um dos nossos grandes cineastas.
*O Filho da Puta foi exibido no Festival do Rio 2026. Ainda não há previsão de estreia para o circuito comercial brasileiro.
O Filho da Puta
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