Charlize Theron, Nicole Kidman e Margot Robbie em O Escândalo

Créditos da imagem: O Escândalo/Paris Filmes/Reprodução

Filmes

Crítica

O Escândalo

História real de assédio é o filme meia-boca de intenções nobres do Oscar 2020

Marcelo Hessel
16.01.2020
17h59
Atualizada em
04.02.2020
11h07
Atualizada em 04.02.2020 às 11h07

O Oscar pode ser uma coisa impiedosa às vezes. Atropelado por Adam McKay na disputa para ser o diretor de comédias pastelão que melhor migra para os filmes de respeito com consciência política, Jay Roach faz com O Escândalo o que a situação pede: uma narrativa irônica que copia o estilo de McKay consagrado na premiação depois da dobradinha A Grande Aposta e Vice.

O estilo em questão é a quebra da quarta parede para fins simultâneos de ironia e didatismo. No caso de McKay, diretor alçado pelos filmes do americano medíocre estrelados por Will Ferrell, como O Âncora e Talladega Nights, o didatismo preserva o desprezo e o sarcasmo da "gente burra" das suas comédias, então é um estilo que faz sentido como continuidade da sua obra - à parte o fato de que as tecnicidades do mercado financeiro e do juridiquês estatal, respectivamente em A Grande Aposta e Vice, pedem mesmo uma tradução ao grande público. Os personagens malandros desses filmes são bem sucedidos nas suas manobras justamente porque navegam melhor nas linhas finas da tecnicidade.

Já em O Escândalo, o estilo não parece tão integrado dramaticamente ao filme e está mais a serviço de uma condescendência com o público. Charlize Theron encanta o espectador no papel da âncora de TV Megyn Kelly como se estivesse apresentando uma reportagem do noticiário noturno, tradicionalmente didático, para toda a família. A trama adapta o escândalo de 2016 em que o poderoso presidente da Fox News, Roger Ailes, é denunciado por assédio sexual - revelação que implode a estrutura do canal, famoso por sua linha editorial conservadora.

A Fox News, com seus vícios evidentes de misoginia e reiterada hipocrisia, é obviamente um alvo fácil para a Hollywood liberal, e ao escolhê-la como tema Jay Roach fica à vontade para colocar Charlize, Margot Robbie e Nicole Kidman como as figuras altivas que revelarão ao mundo a podridão de Ailes, cuja visão de mundo reacionária é carregada para a sarjeta na esteira do escândalo. Se há um filme neste Oscar 2020 que melhor representa o triunfo dos virtuosos, dos "temas importantes" e das nobres intenções, é O Escândalo.

O didatismo está presente aqui no filme em função dessa altivez. Quando conversa com a câmera na sua dicção perfeita - com as lentes de contato e o penteado que a deixam idêntica a Megyn Kelly - Theron na verdade está já se posicionando, a priori, como a voz da verdade e como a autoridade do filme. Não há segredos de bastidor da imprensa e da política que justifiquem em O Escândalo o uso desse recurso da mesma forma como McKay usa. Roach emprega a quebra da quarta parede para definir moralmente os mocinhos e vilões do seu filme antes mesmo que os conflitos se enunciem.

Obviamente O Escândalo é muito pertinente para denunciar hipocrisias e dar voz a pessoas violentadas física e emocionalmente, mas enquanto narrativa - que idealmente seria feita de personagens multidimensionais, falhos, e de conflitos que movem a trama adiante - acaba sendo um relato que se esgota muito rápido na soberba. Depois disso a coisa mais forte gerada pelo filme é a comicidade, talvez involuntária, das maquiagens pesadas que tornam mais grotescos tipos como o âncora Bill O’Reilly. No mais, Roach fazia filmes políticos mais interessantes quando colocava modestamente a esquerda e a direita americana para brigar em Entrando numa Fria Maior Ainda.

Nota do Crítico
Regular