O Drama mostra o lado feio da cultura da fofoca na era da internet
Zendaya e Pattinson humanizam os protagonistas dessa fofoca saborosa
Créditos da imagem: Zendaya e Robert Pattinson em O Drama (Reprodução)
“Eu sou um c*zão por querer cancelar meu casamento depois que minha noiva me contou a pior coisa que ela já fez na vida?”. Esse provavelmente seria o título do post de Charlie (Robert Pattinson) nas comunidades de conselhos e histórias do Reddit, caso ele vivesse no mundo real e não fosse um personagem de O Drama, o novo e aguardado longa de Kristoffer Borgli (O Homem dos Sonhos).
A noiva em questão é Emma (Zendaya), e o segredo que ela conta ao amado é o estopim para todo o tal drama do título do filme. Mas pode ler com tranquilidade, viu? Não vamos ser cretinos o bastante para revelar por aqui o que a campanha de marketing de O Drama escondeu tão bem: o conteúdo da confissão de Emma. Basta dizer que o texto do filme, também assinado por Borgli, entende muito bem o que faz uma fofoca como as que movimentam certos cantos da web ser especialmente crocante.
O Drama é o que toda boa história de internet (reproduzida nos inúmeros perfis de TikTok, YouTube e podcasts que ganham a vida com isso) precisa ser para viralizar: inflamatório, corrente e estupidamente despreparado para lidar com tudo isso. E, de certa forma, não é surpresa – já em O Homem dos Sonhos, Borgli tinha demonstrado fluência na linguagem da internet, e interesse em analisar os seus pormenores para revelar sua toxicidade.
Aquele filme era sobre memes, e a vida útil miserável deles; este, é sobre fofoca. Ambos, no fundo, são sobre como os espaços virtuais contaminaram os espaços reais, e despertaram em nós os instintos reativos mais básicos. Sobre como, hoje em dia (ainda que talvez desde sempre, em certa medida), somos incapazes de racionalizar aquilo que nos causa nojo, repulsa, tesão, raiva, ou qualquer mistura de outros sentimentos primários que nos movem. E quem paga o pato são sempre as pessoas ao nosso redor.
A melhor qualidade de O Drama é quão bem ele retrata esses desencontros entre os personagens que acompanhamos em tela e o discurso que eles levantam no seu círculo social. Borgli prospera num território difuso entre a comédia do constrangimento e o filme-palanque provocativo, articulando tanto de maneiras bobas (uma cena com o casal principal e sua fotógrafa de casamento é impagável) quanto profundas uma polêmica que transborda para além da simplificação que se faz dela nos cochichos que cercam Emma e Charlie a partir do momento que o segredo dela é exposto.
Com o diretor de fotografia Arseni Khachaturan (Até os Ossos) treinado em um estilo observacional e uma montagem esperta, assinada pelo próprio Borgli ao lado de Joshua Raymond Lee (RIPLEY), O Drama constrói um mundo crível de jovens liberais afluentes que se enrolam nas próprias hipocrisias. E, se Pattinson e Zendaya – ele, meticuloso em sua construção de mais um macho inseguro; ela, implacável no desafio que faz à própria imagem – são o coração quebrado do filme, o elenco secundário afiadíssimo estica com folga o alcance cômico do texto.
O Drama ainda dobra como fábula romântica, um retrato honesto de como a vida de casal inevitavelmente deságua no “somos nós contra o mundo”. Ele é, enfim, uma evolução de tudo o que o cineasta fez em seu filme anterior, e um recado cortante para quem é enredado em sua teia de provocações.
O Drama
The Drama
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