Filmes

Crítica

O Dia do Atentado | Crítica

Thriller de ação constrói relato cheio de especificidades para combater o vazio da barbárie

Marcelo Hessel
11.05.2017
18h32
Atualizada em
11.05.2017
20h01
Atualizada em 11.05.2017 às 20h01

O histórico do diretor Peter Berg (O Grande Herói, Hancock) e o próprio tema de O Dia do Atentado (Patriots' Day), filme que refaz a história do ataque à Maratona de Boston, em 2013, sugerem que estamos diante de mais um relato patriótico embalado como thriller de ação para elevar o moral americano, com suas noções muito claras do que é o bem e do que é o mal. O filme não se mostra tão simplista, porém, e encontra formas bem interessantes de ir além desse maniqueísmo.

Berg primeiro organiza tudo como um suspense de procedimento que hipnotiza pela variedade de perspectivas, tanto com suas subtramas (acompanhamos desde o princípio até personagens bastante secundários do desenrolar da investigação) quanto nos formatos: câmeras na mão, material de arquivo, imagens de noticiários, de câmeras de vigilância. O Dia do Atentado atrai pelo volume incomensurável de imagens, o que alimenta o suspense (porque partimos do pressuposto de que toda escolha de ângulo de registro traz uma informação nova), e a opção pela narrativa coral torna a história menos manjada (não se trata apenas da caçada aos irmãos Tsarnaev, mas de uma torcida pelas resoluções de cada subtrama individualmente).

A partir dessa estrutura, o que acompanhamos é um filme bastante competente na execução da ação. Tiroteios e explosões filmados com urgência são, obviamente, o elemento mais latente, mas o que dá substância a O Dia do Atentado é a câmera na mão que sabe se colocar sobre os ombros dos personagens e permanece colada aos corpos para encontrar uma intimidade que torne essas várias histórias individuais mais próximas de nós, no limite do que poderíamos considerar apelativo ou invasivo. O roteiro escrito por Berg com Matt Cook e Joshua Zetumer é fundamental nesse sentido, porque ao eleger momentos-chaves das várias subtramas (o texto é bem enxuto, embora o filme tenha mais de duas horas) consegue dar mais sentido a esses instantes de intimidade dos personagens, suas relações.

E aí está a grande sacada de O Dia do Atentado: escolher diversos momentos que podem parecer dispensáveis e enxergar ali pedaços de uma construção de olhar e de identidade, desde a cena em que o chefe de polícia começa seu dia conversando com a atendente da loja de donuts até o momento em que o jovem policial conta a seus amigos que tomou coragem para chamar a estudante do MIT para sair. Esses momentos triviais são impregnados de idiossincrasias (como o fato de o chefe ter o cuidado de deixar seu cigarro do lado de fora da loja antes de comprar o donut, mas sem largá-lo) que ajudam a formar um senso de pertencimento e de comunidade que estão no nervo de O Dia do Atentado.

Por que aí Peter Berg consegue ir além do maniqueísmo. De um lado temos os jihadistas que, acima de tudo, são figuras de caráter flutuante: o irmão mais velho que condena a imoralidade ocidental mas consome pornô compulsivamente; o mais novo que vive anestesiado, em busca de satisfações imediatas como dirigir um carro rápido ou experimentar uma arma de fogo. Se os irmãos terroristas se mostram personagens descolados da realidade, com seus sonhos de conquistas morais e teorias conspiratórias, do outro lado os cidadãos de Boston que acompanhamos neste filme têm a História a seu lado, o acúmulo das gerações, a cultura sempre em transformação dos imigrantes. Seja no sotaque, no esporte, na banda de rock que é o orgulho local, nas zoações que os policiais fazem um com o outro, na forma como autoridades públicas são tratadas como gente comum, o que vemos aqui é muito mais uma questão de resistência cultural contra a barbárie impessoal do que o mero bem contra o mal.

Em certo momento, o policial vivido por Mark Wahlberg suplica aos agentes federais que liberem publicamente as fotos dos suspeitos e "deixem Boston ajudar". Num filme que trata de fato a cidade como seu personagem principal, e isso é incorporado literalmente pelo roteiro (Boston como um sistema vivo, responsivo), é muito interessante ver como o próprio gênero do thriller de ação se transforma: a caçada aos terroristas não se dá como num filme "normal" - feito mais como uma propaganda de recursos bélicos e tecnológicos, em que de repente o FBI se comporta como uma máquina de eficiência procedural - mas sim com os ímpetos de justiçamento desordenado da gente local. Que personagem formidável e que casting preciso, por exemplo, é o da policial que insiste em ficar no telhado da casa ao lado do sniper profissional só para não dar brecha ao bandido escapar.

Esse tipo de especificidade é o que torna O Dia do Atentado especial, porque a partir dele Peter Berg constrói não apenas uma narrativa com tipos muito humanos mas principalmente um discurso agregador que não se contenta apenas em repetir o slogan do "Boston Strong", e de fato encontra personagens e olhares capazes de torná-lo real.

Nota do Crítico
Ótimo