Em O Convite, Olivia Wilde faz homenagem a outra época de Hollywood
Bem conduzido e interpretado, filme lembra tragicomédias dos anos 1970
Créditos da imagem: Cena de O Convite (Reprodução)
Um dos aspectos mais legais de ver um ator ou atriz se movendo para trás das câmeras para dirigir é entender pelo quê, e o quanto, eles são apaixonados dentro de sua arte. Os primeiros filmes de um intérprete-transformado-em-cineasta frequentemente homenageiam os longas e os diretores que os formaram, seja Dev Patel emulando a ação granular de Danny Boyle em Fúria Primitiva, ou Bradley Cooper reeditando um clássico robusto de Hollywood em Nasce Uma Estrela. No caso de Olivia Wilde, a inspiração tem se mostrado talvez mais difusa – pelo menos, na superfície.
Fora de Série é uma comédia adolescente que não tem medo nem da própria estupidez, nem da própria humanidade. Não se Preocupe, Querida é um thriller de mensagem com vocação satírica e um desgosto claro pela americana dos anos 50. E este O Convite é uma dramédia de relacionamento com ambientação e elenco limitados, que discute sexualidade e as amarguras de um casamento sem muitas papas na língua. São três longas bem diferentes, é verdade, mas são também três longas raros no cinemão hollywoodiano atual, que remontam uma tradição de gênero que já foi corriqueira neste mesmo ambiente.
No caso de O Convite, a referência são os filmes tragi-cômico-românticos com vocação teatral e personagens “gente como a gente”, à la Descalços no Parque (1967), Corações em Alta (1972) ou A Garota do Adeus (1977) – todos esses três, não por acaso, trabalhados nos palcos ou direto para as telas pelo dramaturgo Neil Simon. Talvez a referência mais fácil aqui seja Woody Allen, mas é do trabalho a um tempo ácido e afetuoso de Simon que eu me lembrei enquanto assistia a O Convite… e eu digo isso como um grande elogio, que fique bem claro.
Que Wilde ama e sente falta desse tipo de história é evidente na forma como ela constrói o seu longa. O Convite só sai do apartamento de Joe (Seth Rogen) e Angela (a própria Wilde) nos primeiros segundos de metragem, e só para estabelecer sua ambientação num bairro razoavelmente afluente de San Francisco, onde uma entediada dona-de-casa como Angela pode muito bem convidar impulsivamente o sexy casal de vizinhos de cima (Penélope Cruz e Edward Norton) para jantar sem nem avisar o marido.
Todo tons de bege e ambientes estofados, o longa muito rapidamente te convida (perdão o trocadilho) para se importar com as relações interpessoais entre esses personagens, até porque não há nada em jogo aqui além delas. Dos anos 1970 para cá, Hollywood parece ter decidido que o público não é capaz de ligar para uma história que não trata seus personagens como meros dispositivos em uma engrenagem de destinos muito maior. O Convite foge do melodrama que domina o seu cenário e nos apresenta um casal em crise, tentando enfrentar o constrangimento de sair dessa situação… e só.
É mais do que o bastante para o quarteto de atores no centro do filme brilhar. Rogen tem aprendido, com o tempo e a variedade de projetos que abraça, a direcionar a força do seu charme bonachão para a construção de homens mais críveis, e mais penetrantemente frustrados. Joe é a epítome dessa ideia, uma pilha de inseguranças (mal-)disfarçada em piadas fáceis, rebatendo a sinceridade dos vizinhos com uma ironia tão rápida que é claramente planejada, construída por alguém que encara cada interação social como um campo minado de fragilidades potencialmente expostas.
Por falar nos vizinhos, o ritmo de Penélope Cruz e Edward Norton se choca com o do filme de maneira espetacular. Ele explora com brilhantismo expressões pouco usadas em sua filmografia, interpretando um homem que se leva profundamente a sério, mesmo que saiba o quão profundamente questionáveis são as suas bases de personalidade. E ela contra-ataca com uma desconstrução imensamente prazerosa – para a intérprete e para o espectador – do arquétipo da mulher hispânica fogosa, balanceando o que tem de impulsivo com um olhar afiadamente inteligente, e uma segurança que nenhum de seus colegas de cena consegue emular.
Talvez a nota falsa aqui, de fato, seja a Angela neurótica e combativa de Wilde. Afundada em aparências e cronicamente incapaz de dizer o que realmente sente, a personagem é encarnada pela atriz/diretora com a intenção de evocar Diane Keaton (O Convite é dedicado expressamente a ela, que morreu no último mês de outubro, através de um title card antes dos créditos). Mas falta a Wilde a habilidade indelével que Keaton tinha de expressar essas mulheres nervosas em tela com profundidade, encarando o diálogo com a cadência que o fazia parecer pouco ensaiado.
O resultado é que O Convite precisa conviver com um centro mais rígido, quebradiço, do que o esperado. Não chega a estragar a experiência de um bom resgate de gênero, ou de uma dramédia genuinamente bem observada, mas é um detalhe vaidoso que ofusca um pouco o que poderia ser um retorno brilhante à direção para Wilde.
O Convite
The Invite
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