O Candidato Honesto 2

Créditos da imagem: O Candidato Honesto 2/Downtown Filmes/Reprodução

Filmes

Crítica

O Candidato Honesto 2

Sequência acerta ao investir mais na paródia dos escândalos políticos, mas reproduz erros do primeiro filme

Mariana Canhisares
30.08.2018
13h14

Política não é um dos assuntos mais fáceis de se trabalhar, qualquer que seja a mídia. Mas, em um período em que os humores estão tão sensíveis, a tarefa pode se provar ainda mais difícil. Leandro Hassum, o diretor Roberto Santucci e o roteirista Paulo Cursino já mostraram que sabem combinar o tema com a comédia em O Candidato Honesto e, quatro anos depois, continuam sem pudor para fazer piadas com os escândalos de corrupção.

Novamente em ano eleitoral, o trio volta a brincar com os desdobramentos da história recente do Brasil para narrar mais uma tentativa de João Ernesto de assumir a presidência. Dessa vez, porém, a honestidade não é o principal empecilho nos planos do antigo deputado, e sim o próprio jogo político.

O grande mérito de O Candidato Honesto 2 está na proposta de fazer humor pela identificação. Presente já no primeiro filme, as referências a pessoas e eventos estão agora ainda mais fortes dentro da narrativa. Na realidade, Cursino praticamente pauta os rumos da história do seu protagonista a partir dos momentos mais emblemáticos do noticiário político. Assim, João encarna ora o ex-presidente Lula no depoimento a um juiz federal, ora Dilma Rousseff em uma guerra perigosa com o seu vice. Mesmo os personagens que orbitam essa jornada são também paródias de players importantes do cenário político - Michel Temer, por exemplo, é o vampiresco Ivan Pires, enquanto Jair Bolsonaro é Pedro Rebento.

Com essa estratégia e se valendo do improviso de Hassum, o longa constrói um subtexto crítico divertido que cumpre o que se propõe, isto é, gera uma reflexão sobre o absurdo dos últimos acontecimentos. No entanto, na ânsia de incluir tantos episódios, a trajetória de João Ernesto fica cansativa e picotada, quase como se fosse uma combinação de várias esquetes. Faltou síntese para que a trama fosse mais uniforme. Não só no roteiro, mas também na direção dos humoristas - mais de uma vez o improviso se estende demais e a piada perde a graça.

Porém, talvez a falha mais visível do roteiro seja a narrativa que corre em paralelo, centrada na jornalista Amanda. Toda a esperteza para as piadas políticas passa longe da jornada idealista da personagem, que de tão inocente chega a ser boba. Essa é uma questão que se estende desde o longa de 2014 e, no fundo, tem como origem o fato de que a repórter é mal escrita e pouco interessante. Rosanne Mulholland, que assumiu o papel a partir desse filme, faz o que pode, mas é difícil quando o material de base não ajuda. Embora a ideia seja que Amanda sirva como a consciência do João Ernesto e um eventual par romântico, no final ela é bastante descartável.

Em contrapartida, a adição de Cassio Pandolfh como Ivan Pires é mais do que bem-vinda. O personagem é facilmente um dos melhores elementos da sequência, não somente por brincar com uma comparação recorrente nas redes sociais, mas porque cria um contraste muito claro com a figura do João Ernesto. Pandolfh, mais do que imitar bem Temer, traz uma seriedade ao caos cômico que, ironicamente, é muito engraçada.

Nesse sentido, O Candidato Honesto 2 tem tiradas melhores, mas, ainda assim, não se livra dos problemas do primeiro filme. Além de repetir as piadas sobre a orientação sexual de Marcelinho (Victor Leal), como se ser gay fosse motivo de riso, a continuação extrapola ao reproduzir outros preconceitos e estereótipos.

Considerando que João Ernesto é uma pessoa comum, é compreensível que ele tenha suas imagens pré-concebidas sobre a sociedade. Mas, sem que ele tenha um momento de realização sobre como nem tudo é preto no branco, a decisão de ser “politicamente incorreto” se prova nada revolucionária. Somente, em algumas ocasiões, desrespeitosa com o próprio público.

Nota do Crítico
Regular