O Bosque Selvagem é uma obra-prima épica e deslumbrante sobre amor e luto
Retorno do estúdio Laika é um forte concorrente ao Oscar 2027
São poucas as produções cinematográficas que têm força o bastante para serem reconhecidas como “futuro clássico” instantes depois de deixarmos as salas de cinema. Há filmes que nos provocam, nos emocionam e nos chocam, mas a empolgação vai nos deixando conforme o tempo passa. O Bosque Selvagem, nova animação em stop-motion do estúdio Laika, se encaixa na primeira opção.
Longe de querer banalizar o termo - um clássico é definido por inúmeras virtudes, sendo a principal delas o tempo - O Bosque Selvagem é o tipo de obra-prima que encontra seu lugar no panteão de animações sem apelar. Sexto filme do estúdio Laika, conhecido por animações stop-motion como Coraline, é a representação do avanço do que este tipo de produção pode (e almeja) ser. Ela se destaca em um mercado de animações dominado por gráficos digitais de aspecto polido e, por vezes, inquietante. Aqui, o diretor Travis Knight “ignora” essa era digital para buscar o que muitas vezes faltam em outras animações e até produções live-action: humanidade.
Talvez seja por isso que O Bosque Selvagem transborde humanidade. Em cada aspecto de sua animação, cor ou textura, a nova aposta do Laika contém alma, o que lhe dá a substância necessária para se transformar em algo épico para além das páginas e da nossa imaginação. Ao nos envolvermos com a história de Prue (Peyton Elizabeth Lee no original e Giulia Benite na versão brasileira), uma jovem que, ao ter seu irmão mais novo sequestrado por corvos, se vê no meio de um confronto entre animais falantes e seres místicos dentro de uma floresta mágica, encontramos essa humanidade que nos firma em uma montanha-russa de emoções.
Se a história do filme, uma adaptação do livro de Colin Meloy, parece um tanto convencional, a animação da Laika trata de recompensar. Há ecos das obras de C.S. Lewis e Tolkien, mas o visual deslumbrante da adaptação nos faz esquecer rapidamente de qualquer comparação. O fato de conseguirmos reconhecer esses elementos não é um defeito. Eles não são feitos de imitações baratas ou bobagens sem valor. Pelo contrário, foram selecionados a dedo e montados sabiamente, compondo um rico mosaico de escolhas e referências intencionais, organizadas em uma configuração fascinante. O roteiro de Chris Butler investe em diálogos afiados e que nunca pesam no tom, seja para o drama ou para o humor. Os laços entre os personagens se formam rápido e soam genuínos, mesmo quando estas ligações são forjadas por dor e sofrimento.
Essas ligações, inclusive, são as que O Bosque Selvagem trabalha com louvor. Longe de cair em estereótipos, o filme tem em sua vilã, a Rainha Viúva Alexandra (Carey Mulligan), talvez uma das melhores e mais trabalhadas figuras antagônicas das animações norte-americanas. Suas ações são marcadas pelo amor e pelo luto, uma dor constante que a faz ferir qualquer um que passe pelo seu caminho. E ao abordar temas tão adultos, o filme não se priva de registrar essa dor - a sequência inicial do longa, que revela a origem deste luto, mostra que de infantil O Bosque Selvagem tem quase nada.
É uma saga ao mesmo tempo complexa e classicamente simples, mas cativante do início ao fim. Se Prue é a heroína implacável e convicta de suas virtudes, o jovem Curtis (Jacob Tremblay), que é tragado por esse confronto místico sem querer, é o herói em formação, aquele que precisa do empurrãozinho - ou um encontro com a morte certa - para descobrir o seu valor. Uma dupla fascinante e que funciona separadamente, cada um com sua jornada de crescimento específica, e que culmina num reencontro de proporções (e uma batalha) épica. O filme também é recheado de personagens secundários vibrantes, suficiente para justificar um elenco de vozes composto por grandes estrelas, incluindo Mahershala Ali, Awkwafina, Angela Bassett e por aí vai.
Por tudo isso e muito mais, O Bosque Selvagem é o tipo de filme que já nasce um clássico. E mesmo que alguns torçam o nariz pelo uso banal do termo, eu aposto que o tempo - e a magia do estúdio Laika - há de nos colocar lado a lado nas trincheiras por Prue, Curtis e sua trupe de criaturas mágicas.
O Bosque Selvagem
Wildwood
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